Olhando a Conferência de Londres sobre o Afeganistão

“A conferência vai ser uma grande oportunidade para o Afeganistão explicar ao resto do mundo os nossos planos para a reconciliação e reintegração”, anunciou o presidente afegão, Hamid Karzai, que esteve em Londres para abrir a conferência[1]

“A Conferência de Londres tem de facto como objetivo ampliar a invasão do Afeganistão pelas forças de ocupação, e é apenas uma perda de tempo...A única solução para os problemas do Afeganistão é a saída imediata de todas as tropas de ocupação.” Parte do comunicado Conselho de Comando dos Talibãs
[2]

A perder no terreno, o Ocidente vai procurar implementar uma estratégia menos militar e mais política para reconstruir o país. Como por exemplo a integração dos talibãs. A guerra no Afeganistão, que dura há mais de oito anos, está novamente no centro das atenções internacionais. Sob a égide das Nações Unidas, teve lugar ontem, dia 28 de Janeiro de 2010, em Londres o maior encontro de sempre sobre o país, contando com a participação de mais de 60 nações que estão envolvidos de um modo ou outro no que se passa no Afeganistão. O objectivo da conferência foi o de chegar a um acordo sobre como irá a comunidade internacional apoiar os aspectos não-militares do combate aos insurgentes e ao esforço de reconstrução do país. Segundo o co-presidente do evento, o ministro dos Negócios Estrangeiros do Reino Unido, David Milliband, é esperado que da reunião saia uma demonstração de “claridade, coesão e confiança” dos participantes sobre o que tem que ser conseguido no Afeganistão até 2011, bem como os melhores meios de ajudar o Governo do país a tomar controlo do seu território.

Contudo esta reunião pode não ter sido um sucesso, se uma das partes mais importantes da estratégia definida em Londres, os Talibãs, disse que essa conferência internacional ia ser uma perda de tempo, reiterando sua recusa a qualquer negociação antes da retirada as tropas estrangeiras do país dado que “Houve conferências similares no passado, e nenhuma resolveu os problemas do Afeganistão, e a mesma coisa vai acontecer em Londres”[3], então pouco sucesso terá sido conseguido na capital britânica. Por outro lado, o Irão não participou na conferência porque “O Irão considera essa reunião como inútil e sem objectivo...” dado que o Irão “...não acredita que a conferência permita resolver os problemas do Afeganistão porque assenta no aumento da presença militar (de países ocidentais) e não se interessa pela raíz dos problemas”[4].

Entranto, olhando para o evento em si que foi organizada pela ONU, Afeganistão e Reino Unido, reuniu mais de 60 países, avaliou a situação no Afeganistão em todas as suas dimensões e permitiu uma mais efectiva coordenação da comunidade internacional para que sob a liderança das Nações Unidas possa apoiar eficazmente o governo do Afeganistão no que se refere à segurança, desenvolvimento e governação do País - que foram objecto de três sessões de trabalho separadas com o objectivo de preparar e reforçar a responsabilidade e capacidades afegãs no que respeita à segurança; à criação de condições económicas e sociais que permitam uma paz sustentável; apoiar os compromissos já assumidos de reformas; e reiterar a importância da cooperação regional e do diálogo por forma a contribuir para a segurança e estabilidade interna e regional.

Outros dos parceiros presentes foi a União Europeia que, recorde-se, aprovou no Conselho Europeu de Outubro de 2009 a revisão da estratégia para a região, traduzida na adopção de um Plano de Acção para o Afeganistão e Paquistão, que prevê o reforço das instituições e forças de segurança nacionais, a promoção da boa governação, os Direitos Humanos, o Estado de Direito e o desenvolvimento económico a ser implementado em colaboração com as autoridades afegãs.
Isto quer dizer que a estratégia definida em Londres assenta na estabilidade em termos sociais, económicos e de segurança, ou seja, uma direcção mais política e menos militarista e que ainda possui um factor de ownership por parte dos afegãos em todo o processo, ou seja, procurou-se “afeganizar” a solução. Aliás, as autoridades afegãs pretendem, com a ajuda internacional, criar empregos, dar formação profissional e outros incentivos financeiros para assim convencer os combatentes talibã a reintegrarem a vida civil. A longo-prazo, o objectivo é o de dar maior estabilidade em termos sociais, económicos e de segurança ao país, permitindo que as forças internacionais entreguem a defesa do território às forças afegãs. O rosto deste plano será Mark Sedwill, o diplomata britânico que foi nomeado para ser o novo representante do secretário-geral da NATO no Afeganistão. O embaixador britânico vai substituir o italiano Fernando Gentilini, que estava no cargo desde Maio de 2008.
A Alemanha aproveitou a conferência de Londres para apresentar, por seu lado, uma versão de um programa para “arrependidos” talibãs que podem aceder ao governo, isto com o apoio dos EUA que concordou com esta proposta. Apesar de a conferência não se ter destinado a angariar mais donativos ou o reforço das forças internacionais, Berlim já confirmou que vai quase duplicar o apoio económico e enviar mais 1.500 soldados. O objectivo da conferência, segundo defendeu o ministro dos Negócios Estrangeiros alemão, Guido Westerwelle, centrou-se na “reconstrução civil’ do Afeganistão, tendo em vista a “perspectiva de retirada” das tropas internacionais nos próximos quatro anos. Pelo contrário, a França fez saber, pelo seu Presidente, Nicolas Sarkozy, que não irá reforçar o contingente militar francês, que conta actualmente 3.300 soldados. A Força Internacional de Assistência para a Segurança constituída por 43 países, entre os quais Portugal, possui actualmente 113 mil soldados no Afeganistão.
Pessoalmente, julgo que foi um excelente passo o facto de esta conferência poder significar algo que eu apoio em absoluto: um maior envolvimento da ONU na questão afegã, designadamente através do reforço do papel da UNAMA [Missão de Assistência das Nações Unidas no Afeganistão] na coordenação do esforço internacional no terreno. Por outro lado, é importante felicitar a comunidade internacional por ter procurado dar um golpe nos grupos insurrectos no Afeganistão oferecendo dinheiro, empregos e formação aos combatentes talibãs que abandonem as armas.

Outro importante passo conseguido em Londres foi um maior consenso dos parceiros internacionais envolvidos, embora se procure uma cooperação reforçada com países vizinhos, onde o Irão (que não participou) e o Paquistão são de especial importância se considerarmos que partilham com o Afeganistão a religião, a língua (no caso do Irão) e a instabilidade causada por parte dos insurectos (no caso de Paquistão). Ou seja, resolver Afeganistão é também estabilizar o Paquistão, contando com o Irão como parceiro de primeira linha. Com isto quero dizer que o programa nuclear iraniano possa a vir ser uma troca na mesa das negociações por forma a garantir que o Irão não se oponha a toda estratégia adoptada em Londres.
Por fim, é de uma viragem radical o facto de os países ocidentais, com os EUA a cabeça, terem aceite retirar algumas figuras importantes dos Talibãs da “lista dos terroristas mais procurados” por forma a que possam ser interluctores válidos na negociação, implementação e condução da estratégia de Londres. Julgo que esta estratégia poderia ser pensada para também resolver um problema bicudo que graça a comunidade internacional a mais de meio século: a questão palestiniana. Ou seja, se os líderes do Hamas pudessem beneficiar de tal ‘aministia’, creio que o processo poderia ser mais promissor. Talvez, a estratégia de Londres seja um novo paradigma nas relações entre o mundo ocidental e o muçulmano que a longo prazo possa vir a beneficiar os palestinianos, em particular o Hamas. Se assim fosse, o Médio Oriente agradecia!

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