A Vida na Arábia Saudita: Uma Monarquia que Proíbe Mulheres de Conduzir e Outras Coisas...

“Nunca foi uma questão ligada à condução, conduzir é apenas um símbolo (...)é sobre o empowerment e mobilidade das mulheres. As mulheres precisam de empregos e elas precisam de uma forma para chegar a estes empregos.” Aisha al-Mane, uma empresária saudita ao The Christian Science Monitor
Já se passam mais de dois anos desde na quase noite do dia 09 de Fevereiro de 2007 aterrarei no aeroporto de Jeddah, Arábia Saudita. Cumpridas as formalidades da migração, lá estava o motorista com a placa com o meu nome para me poder levar para o hotel. No caminho para o meu merecido descanso, já que no dia seguinte era dia de trabalho (na Saudia o fim-de-semana é a quinta e sexta-feira), me confrontei com uma realidade já conhecida, mas jamais vivida: as ruas de Jeddah estavam com um trafico infernal, normal nos países árabes, mas nada de ver as mulheres ao volante. Via-se a serem conduzidas ou pelos seus familiares ou por motoristas. Este assunto foi dos primeiros a trocar com o Mahmud, o motorista, aliás um nome bastante comum nestas paragens, e que hoje é como um pai para mim. Como ele é natural da Guiné Conacry, a costela africana nos ligou e conversamos feito dois amigos de longa data. Assim, passado este tempo, julguei ser interessante partilhar as experiências que fui acumulando no meu dia-a-dia em Jeddah, a capital económica da Arábia Saudita, já que a política é Riyadh.
Comecemos por olhar para a Arábia Saudita para podermos, eventualmente, entender como se coze esta sociedade. É nesta monarquia onde estão localizados dois dos três lugares mais santos para a religião muçulmana, nomeadamente, Macca e Madinah, o terceiro lugar é Jerusalém (Palestina). Foi neste lugar onde o Islam nasceu. Esta mesma religião que vem encontrar uma sociedade de todo não civilizada, pois a tradição que existia nos tempos pré-islamicos davam um lugar de marginalização a mulher; na verdade, quando se desse luz à um bebe do sexo feminino, era enterrada viva por ser a causa da vergonha do homem que era o pai da mesma. Assim, os ensinamentos do Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele) conduziram esta sociedade a uma melhor civilização ao espelho do Islam, todavia, aspectos tradicionais ha que ainda superam os desígnios religiosos. O que quero aqui partilhar reside na crença de que a marginalização da mulher que se verifica nas sociedades árabes é distante do que o Islam defende para esses casos (para melhores esclarecimentos nesta matéria vide a obra do Sheikh Aminuddin Muhammad, A Mulher no Islam) e apenas encontra justificação nas praticas tradicionais das mesmas sociedades.
Deste modo, voltando a conversa com o Mahmud, ele me lembrou que no tempo do Profeta as mulheres podiam montar cavalos ou camelos e ele não entendia como as mesmas estavam proibidas de conduzir automóveis, pois este objecto se difere dos outros por não ser um animal, mas que é também um meio de transporte e ele acredita que se o Profeta vivesse nos dias de hoje não seria apologista dessa proibição. Alias, um proeminente Sheikh (autoridade religiosa) saudita, Ayed Al-Qarni se indigna com esta situação porque tanto o Qur’an (livro sagrado dos muçulmanos) bem como o Sunnat e Hadith (as praticas e ditos do Profeta) não podem ser usados como fontes para proibir mulheres de conduzir e se assim é, tal proibição está longe de ser considerada islâmica, pois o que é licito ou ilícito para um muçulmano cumprir se encontra nas fontes aqui mencionadas. Ou seja, esta situação pode-se resumir na dimensão de se perceber de que o que é cultural ou socialmente rejeitado é diferente do que é religiosamente aceite. Alias, Mahmud diz que se para os sauditas a condução para mulheres está ao nível do que é considerado ilícito ou pecaminoso, então, milhares de mulheres muçulmanas há que em todo mundo cometem esse pecado. No fundo, em toda a sociedade árabe, apenas na Saudia é onde existe esta proibição e até no baluarte do conservadorismo islâmico, como é o caso do Irão, tal situação não se verifica. E Mahmud me conta casos caricatos de mulheres sauditas que ao final-de-semana viajam para outros países vizinhos para poderem conduzir e não se tinha registo de nenhum acidente causado pelas mesmas, pelo contrario, ele afirma que as autoridades de Qatar, um dos países vizinhos da Saudia, elogiavam a condução das sauditas. Importa salientar que as estradas sauditas, na sua maioria, têm separadores centrais o que diminui o número de acidentes e não existem portangens (que paraíso!).
É interessante olhar para o preço do combustível deste lado. Não se surpreenda, um litro custa apenas 3,5 meticais (isso mesmo, leu bem, são três meticais e cinquenta centavos) e eu encho o meu tanque com apenas o equivalente a 140 meticais ou 20 reais (a moeda saudita). Isto tem uma explicação, a Arábia Saudita é um dos maiores produtores e exportadores de petróleo, o que necessariamente baixa o custo de vida.
Contudo, o povo saudita, tirando raras excepções, principalmente aqueles que se formaram no exterior, é muito difícil de lidar. É triste ver como os empregados são tratados, a ausência de sociabilidade e a ideia de que eles são mais importantes do que todos os outros. Em relação aos estrangeiros, apenas os ocidentais é que obtêm melhor respeito, principalmente os americanos. Esta dificuldade da sociedade se espelha, por exemplo, na lei da nacionalidade. Apenas os filhos da mãe e pai saudita têm automaticamente a cidadania. Se o pai for estrangeiro, não se lhe atribui a nacionalidade, o mesmo se aplica a quem nasça nestas paragens, caso do meu filho. Por outro lado, os sauditas se quiserem se casar com uma estrangeira, têm de obter uma permissão para esse efeito a partir do ministério que tutela os assuntos familiares e sociais.
Um outro aspecto de que muitos me perguntam é: o que costumam fazer ao final-de-semana? Pois, o entretenimento é quase inexistente. Não existem cinemas, teatros, discotecas. Para encontrar uma praia em que seja permitido tomar banho é um exercício complicado e tem que implicar grandes viagens, por exemplo, para Durat-al Arusse que é simplesmente espetacular, um lugar para visitar, se um dia passar por estas paragens. Por isso, passamos o nosso tempo de lazer em frente a televisão, basicamente por satélite, dado que a televisão local é pouco interessante. Louva-se o facto de a TVM e a TIM estarem no satélite o que nos coloca um pouco menos distantes de casa, e aproveitaria esta oportunidade para encorajar a STV para fazer o mesmo. Por causa da ausência de socialização, a maior parte dos estrangeiros que têm ordenados de meter inveja os nossos ministros, vivem em grandes condomínios que são, simplesmente, cidades dentro da própria cidade.
Por outro lado, esta é uma sociedade consumista dado que existem muitos espaços comerciais e comer fora é uma cultura. Mas, geralmente, a vida "começa" depois da reza da tarde ou Sualate Assr, isto por volta das 16 horas (mais uma hora que Maputo), dado que faz muito calor, principalmente entre Abril e Dezembro. Os meses mais frescos são de Janeiro à Março. Esta situação propicia o uso do ar-condicionado, por isso este é um grande negócio por estas bandas.
Portanto, se um dia decidir visitar a Arábia Saudita saiba que pode se preocupar com outras coisas, menos com a segurança. É bastante seguro viver por aqui, dado que o sistema judicial/legal é baseado na lei islâmica ou Sharia que, por exemplo, quem mata é morto, mas dá-se sempre espaço para que os ofendidos possam reflectir no crime em que o seu ente-querido perecera e poder perdoar o acusado dado que no Islam não lugar para quem não saiba perdoar ou que não saiba pedir perdão. Por fim, saiba que na hora do sualate ou reza, todo o comércio fecha, idem aspas para os bancos. A lei não se aplica para hospitais e ou outros serviços de grande sensibilidade como bombeiros e polícia. Enfim, é mais ou menos isto de se me oferece, por agora, partilhar sobre a minha vida em Jeddah.
Já se passam mais de dois anos desde na quase noite do dia 09 de Fevereiro de 2007 aterrarei no aeroporto de Jeddah, Arábia Saudita. Cumpridas as formalidades da migração, lá estava o motorista com a placa com o meu nome para me poder levar para o hotel. No caminho para o meu merecido descanso, já que no dia seguinte era dia de trabalho (na Saudia o fim-de-semana é a quinta e sexta-feira), me confrontei com uma realidade já conhecida, mas jamais vivida: as ruas de Jeddah estavam com um trafico infernal, normal nos países árabes, mas nada de ver as mulheres ao volante. Via-se a serem conduzidas ou pelos seus familiares ou por motoristas. Este assunto foi dos primeiros a trocar com o Mahmud, o motorista, aliás um nome bastante comum nestas paragens, e que hoje é como um pai para mim. Como ele é natural da Guiné Conacry, a costela africana nos ligou e conversamos feito dois amigos de longa data. Assim, passado este tempo, julguei ser interessante partilhar as experiências que fui acumulando no meu dia-a-dia em Jeddah, a capital económica da Arábia Saudita, já que a política é Riyadh.
Comecemos por olhar para a Arábia Saudita para podermos, eventualmente, entender como se coze esta sociedade. É nesta monarquia onde estão localizados dois dos três lugares mais santos para a religião muçulmana, nomeadamente, Macca e Madinah, o terceiro lugar é Jerusalém (Palestina). Foi neste lugar onde o Islam nasceu. Esta mesma religião que vem encontrar uma sociedade de todo não civilizada, pois a tradição que existia nos tempos pré-islamicos davam um lugar de marginalização a mulher; na verdade, quando se desse luz à um bebe do sexo feminino, era enterrada viva por ser a causa da vergonha do homem que era o pai da mesma. Assim, os ensinamentos do Profeta Muhammad (que a paz esteja com ele) conduziram esta sociedade a uma melhor civilização ao espelho do Islam, todavia, aspectos tradicionais ha que ainda superam os desígnios religiosos. O que quero aqui partilhar reside na crença de que a marginalização da mulher que se verifica nas sociedades árabes é distante do que o Islam defende para esses casos (para melhores esclarecimentos nesta matéria vide a obra do Sheikh Aminuddin Muhammad, A Mulher no Islam) e apenas encontra justificação nas praticas tradicionais das mesmas sociedades.
Deste modo, voltando a conversa com o Mahmud, ele me lembrou que no tempo do Profeta as mulheres podiam montar cavalos ou camelos e ele não entendia como as mesmas estavam proibidas de conduzir automóveis, pois este objecto se difere dos outros por não ser um animal, mas que é também um meio de transporte e ele acredita que se o Profeta vivesse nos dias de hoje não seria apologista dessa proibição. Alias, um proeminente Sheikh (autoridade religiosa) saudita, Ayed Al-Qarni se indigna com esta situação porque tanto o Qur’an (livro sagrado dos muçulmanos) bem como o Sunnat e Hadith (as praticas e ditos do Profeta) não podem ser usados como fontes para proibir mulheres de conduzir e se assim é, tal proibição está longe de ser considerada islâmica, pois o que é licito ou ilícito para um muçulmano cumprir se encontra nas fontes aqui mencionadas. Ou seja, esta situação pode-se resumir na dimensão de se perceber de que o que é cultural ou socialmente rejeitado é diferente do que é religiosamente aceite. Alias, Mahmud diz que se para os sauditas a condução para mulheres está ao nível do que é considerado ilícito ou pecaminoso, então, milhares de mulheres muçulmanas há que em todo mundo cometem esse pecado. No fundo, em toda a sociedade árabe, apenas na Saudia é onde existe esta proibição e até no baluarte do conservadorismo islâmico, como é o caso do Irão, tal situação não se verifica. E Mahmud me conta casos caricatos de mulheres sauditas que ao final-de-semana viajam para outros países vizinhos para poderem conduzir e não se tinha registo de nenhum acidente causado pelas mesmas, pelo contrario, ele afirma que as autoridades de Qatar, um dos países vizinhos da Saudia, elogiavam a condução das sauditas. Importa salientar que as estradas sauditas, na sua maioria, têm separadores centrais o que diminui o número de acidentes e não existem portangens (que paraíso!).
É interessante olhar para o preço do combustível deste lado. Não se surpreenda, um litro custa apenas 3,5 meticais (isso mesmo, leu bem, são três meticais e cinquenta centavos) e eu encho o meu tanque com apenas o equivalente a 140 meticais ou 20 reais (a moeda saudita). Isto tem uma explicação, a Arábia Saudita é um dos maiores produtores e exportadores de petróleo, o que necessariamente baixa o custo de vida.
Contudo, o povo saudita, tirando raras excepções, principalmente aqueles que se formaram no exterior, é muito difícil de lidar. É triste ver como os empregados são tratados, a ausência de sociabilidade e a ideia de que eles são mais importantes do que todos os outros. Em relação aos estrangeiros, apenas os ocidentais é que obtêm melhor respeito, principalmente os americanos. Esta dificuldade da sociedade se espelha, por exemplo, na lei da nacionalidade. Apenas os filhos da mãe e pai saudita têm automaticamente a cidadania. Se o pai for estrangeiro, não se lhe atribui a nacionalidade, o mesmo se aplica a quem nasça nestas paragens, caso do meu filho. Por outro lado, os sauditas se quiserem se casar com uma estrangeira, têm de obter uma permissão para esse efeito a partir do ministério que tutela os assuntos familiares e sociais.
Um outro aspecto de que muitos me perguntam é: o que costumam fazer ao final-de-semana? Pois, o entretenimento é quase inexistente. Não existem cinemas, teatros, discotecas. Para encontrar uma praia em que seja permitido tomar banho é um exercício complicado e tem que implicar grandes viagens, por exemplo, para Durat-al Arusse que é simplesmente espetacular, um lugar para visitar, se um dia passar por estas paragens. Por isso, passamos o nosso tempo de lazer em frente a televisão, basicamente por satélite, dado que a televisão local é pouco interessante. Louva-se o facto de a TVM e a TIM estarem no satélite o que nos coloca um pouco menos distantes de casa, e aproveitaria esta oportunidade para encorajar a STV para fazer o mesmo. Por causa da ausência de socialização, a maior parte dos estrangeiros que têm ordenados de meter inveja os nossos ministros, vivem em grandes condomínios que são, simplesmente, cidades dentro da própria cidade.
Por outro lado, esta é uma sociedade consumista dado que existem muitos espaços comerciais e comer fora é uma cultura. Mas, geralmente, a vida "começa" depois da reza da tarde ou Sualate Assr, isto por volta das 16 horas (mais uma hora que Maputo), dado que faz muito calor, principalmente entre Abril e Dezembro. Os meses mais frescos são de Janeiro à Março. Esta situação propicia o uso do ar-condicionado, por isso este é um grande negócio por estas bandas.
Portanto, se um dia decidir visitar a Arábia Saudita saiba que pode se preocupar com outras coisas, menos com a segurança. É bastante seguro viver por aqui, dado que o sistema judicial/legal é baseado na lei islâmica ou Sharia que, por exemplo, quem mata é morto, mas dá-se sempre espaço para que os ofendidos possam reflectir no crime em que o seu ente-querido perecera e poder perdoar o acusado dado que no Islam não lugar para quem não saiba perdoar ou que não saiba pedir perdão. Por fim, saiba que na hora do sualate ou reza, todo o comércio fecha, idem aspas para os bancos. A lei não se aplica para hospitais e ou outros serviços de grande sensibilidade como bombeiros e polícia. Enfim, é mais ou menos isto de se me oferece, por agora, partilhar sobre a minha vida em Jeddah.
Salam, ler um pouco disto fez-me muito bem, tendo em conta que em breve estarei a passar por uma experiencia penso que mais custosa que a tua, visto que sou mulher e as mulheres como acabei de ler no teu artigo sofrem com as injusticas causadas pelo homem que tenta impor nao a religiao mas a sua propria lei para se benefeciar redicularizando a mulher.
ReplyDeleteVenho de uma cultura totalmente diferente em termos de habitos do pais em que me encontro no momento por sinal de onde tambem vieste ( mocambique - maputo). bom, gostei imenso do teu artigo...foi realmente importante para mim para perceber certos assuntos referidos por ti que padeciam em mimnha ignoracia.
penso que de agora em diante prestarei muito mais atencao nos teus pekenos textos que refletem uma realidade, que nao eh desconhecida por mim, mas que ate entao dava pouca importancia.
bah grande
Sheila
Na poderosa aura internacional da inteligência das nações, a Arábia Saudita é um zero à esquerda. O é pela história que a vitimou e a fez uma pobre parasita bilionária do petróleo. O árabe é inconsciente de sua ingenuidade e inocência, que o empurra para vidas nababescas e estranhas. Há uma lenda que o então polêmico, turbulento e irreverente presidentão americano George Bush certa vez teria dito que os Estados Unidos monitoram tão somente o petróleo naquela região. Os petrotrilhões são filtrados nos bancos da América do Norte e retornam outros petrobilhões para aquela península...:)
ReplyDeleteNa poderosa aura internacional da inteligência das nações, a Arábia Saudita é um zero à esquerda. O é pela história que a vitimou e a fez uma pobre parasita bilionária do petróleo. O árabe é inconsciente de sua ingenuidade e portanto inocente, perfil que o empurra para vidas nababescas e estranhas. Há uma lenda que o então polêmico, turbulento e irreverente presidentão americano George Bush certa vez teria dito que os Estados Unidos monitoram tão somente o petróleo naquela região. Os petrotrilhões são filtrados nos bancos da América do Norte e retornam outros petrobilhões para aquela península.. Ademais aquele texano sabe de uma Dubôrtisita, mistura de Dubai com aborto parasita, versão endinheirada de uma muquiroca, mistura de muquifo com maçaroca, versão lunática de uma Brasília pragmática, capital dos brasileiros…
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