Eleições Parlamentares no Kuwait ou o Iniciar da Emancipação da Mulher no Médio Oriente?

“A eleição de quatro mulheres sábado [16 de Maio] é um grande avanço para o Kuwait, a região e eu diria até para o mundo”, declarou a chefe da diplomacia americana, Hilary Clinton, durante cerimonia de graduação em Barnard College, uma universidade de mulheres de Nova York.
Notícias relacionadas com mulheres serem eleitas para cargos governamentais deixaram de ter importância em muitos lugares do mundo, mas no Médio Oriente quando isso acontece, todos olhamos para esse facto e começamos a conjecturar as consequências positivas que daí podem advir. No passado sábado, 16 de Maio, realizaram-se as eleições parlamentares no pequeno emirado do Kuwait, que tem 3,44 milhões de habitantes, 2,35 milhões dos quais estrangeiros sem direito a voto, detendo 10 por cento das reservas petrolíferas mundiais e que produz 2,2 milhões de barris de petróleo diários. Nestas, as mulheres conseguiram entraram pela primeira vez no parlamento do Kuwait, ao garantiram a eleição de quatro representantes. Nestas legislativas há ainda a destacar o recuo dos partidos islamistas sunitas que perderam grande parte dos lugares que detinham. A Aliança Islamista Salafista ficou apenas com dois lugares, ao passo que o Movimento Constitucional Islâmico recuou apenas para um lugar. Por outro lado, a minoria xiita conseguiu aumentar o número dos seus lugares no parlamento de cinco para nove, tendo os representantes das tribos do país obtido uma importante vitória, ao também conseguirem aumentar a sua representação.
De acordo com os resultados publicados no dia seguinte (17 de Maio), Massama al-Mubarak, liberal e ex-ministra da Saúde, uma das quatro mulheres que conseguiu a eleição, conseguiu mesmo vencer toda a concorrência na circunscrição em que concorria. A juntar-se a ela, outras duas liberais, Aseel Al Auadhi e Rula Dashti, assim como a independente Salua Al Jassar entrarão para a nova Câmara. Elas estudaram nos Estados Unidos e têm doutorados em ciências políticas, economia e educação. No total, 16 mulheres, que perfazem 54.3% dos 385 mil eleitores, participaram entre os 210 candidatos dessa disputa que elegeu os 50 deputados do parlamento kuwaitiano. Esta é a terceira vez que as mulheres participam das eleições para o Parlamento desde que obtiveram o direito de voto e à representação em 2005. Nas últimas eleições, de 2006 e 2008, nenhuma foi eleita.
Estas foram as terceiras eleições no Kuwait desde Maio de 2006, todas provocadas pelo emir do país, o xeque Sabah al-Ahmad al-Sabah, que, em Março, voltou a dissolver o parlamento do país, devido a querelas entre legisladores e governo. Contudo o povo Kuwaitiano está pouco confiante de que a votação irá acabar com um conflito entre parlamentares e o Gabinete que tem atrasado reformas económicas. A nova assembléia deverá votar um pacote de estímulo econômico no valor de 5 bilhões de dólares, visto como crucial para ajudar o setor financeiro do país a superar a crise econômica global. As medidas foram aprovadas em março pelo gabinete provisório, que é dominado por membros da família do soberano e pelo próprio soberano, Sheikh Sabah al-Ahmad al-Sabah, que dissolveu a última Assembleia. As medidas devem agora ser aprovadas também pela nova Assembleia.
Não há partidos políticos no Kuwait, o quarto maior exportador de petróleo do mundo. No entanto, conservadores islâmicos e líderes tribais, que se opuseram aos planos económicos do governo e pressionaram os ministros, dominaram o cenário novamente e continuarão, ao que tudo indica, a pressionar, mesmo podendo perder alguns votos devido à crescente frustração popular. A nação do Golfo Pérsico é a única democracia parlamentar da região. O Kuwait é dividido em dez circunscrições eleitorais, as quais elegem dez deputados cada uma.
Olhando para eleição destas quatro mulheres em país em que elas constituem 44 por cento da força laboral, a maior do Golfo, percebemos que as mulheres estão a conquistar o seu espaço e a procurar se emancipar. Na verdade, quando se fala das mulheres desta região, o nome da Rainha Ránia da Jordânia vem a mente pelo trabalho que ela tem feito no sentido de procurar mostrar que as mulheres do Médio Oriente têm mais para ‘dar’ do que aquilo que se conhece delas a partir da história das mil e uma noites. Outros nomes relevantes nesta luta são os da descrita como a arquitecta da expansão da Educação do Qatar, Sheika Mozah Al-Missned, mulher do Emir do Qatar, que ultrapassou as barreiras do seu país através do desenvolvimento de projectos inovadores para melhorar o ensino. Mozah, a única mulher pública do xeque Hamad Bin Khalifa al Thani, é enviada especial da UNESCO para a educação básica e superior e desde 2005 membro do grupo de alto nível da Aliança de Civilizações (tive o prazer de ouví-la no recente Forum da Aliança que teve lugar mês passado em Istambul). Mas seu forte é o âmbito educacional. Em 2003 promoveu a constituição de um fundo internacional para a educação superior no Iraque, e em seu país é madrinha da Cidade da Educação, um megacampus situado nas redondezas de Doha, com faculdades das melhores universidades americanas, como Carnegie Mellon ou Georgetown. A xequesa recebeu doutorado honoris causa de todas elas. E a revista "Forbes" a incluiu em 2007 na lista das cem mulheres mais influentes do mundo.
O casamento do xeque Mohamed Bin Rashid al Maktoum do Dubai com a meio-irmã do rei Abdallah da Jordânia, Haya, fez Dubai ganhar peso político e multiplicou a atração do emirado. Haya, 25 anos mais moça que o marido, é a mãe de seu décimo nono filho. Embaixadora da boa vontade do Programa Mundial de Alimentos da ONU e presidente da Federação Hípica Internacional, Haya, que na juventude frequentou os hipódromos espanhóis, é um valor agregado por sua proximidade do rei hachemita.
No fundo e como li algures, todas essas primeiras-damas constituem um importante trunfo na hora de vender o Golfo para os investidores estrangeiros, mas não é só uma questão cosmética. E embora a primeira-dama do Catar seja a mais exibicionista, por assim dizer, a mais aficionada às câmeras, por trás dessa projeção midiática, inédita na região, está uma realidade inapelável, a de que esses países estão diminuindo a diferença de gênero. Até a Arábia Saudita, o mais conservador de todos os estados do Golfo, foi capaz de pela primeira vez, a 14 de Fevereiro 2009, indicar uma mulher para o Conselho de Ministros. Nesse dia, o Rei Abdulla nomeou Norah al-Faiz para o novo posto de ministra da Educação Feminina. Ela disse na ocasião: “Estou muito orgulhosa por ter sido selecionada para uma posição de tanto prestígio”, desejando que outras mulheres ocupem cargos importantes no futuro.
Portanto, estas movimentações procuram, até certo ponto, desmentir que a mulher no Médio Oriente é subjugada e tem pouco papel para o desenvolvimento da região. Aliás, um dos factores que é sempre usado para criticar os países desta região tem a ver com a forma como a mulher se posiciona na sociedade e dentro deste espírito, foi criada a Organização da Mulher Árabe ou AWO (Arab Women Organization). O AWO (http://www.arabwomenportal.org/) é uma organização intergovernamental criada sob a égide da Liga dos Estados Árabes e com sede no Egipto. Resulta do Declaração Cairo emitida pela Primeira Cimeir das Mulheres Árabes que se reuniu em Cairo, em Novembro de 2000 em resposta a um apelo lançado pela Suzanne Mubarak, Primeira Dama do Egipto, que foi co-organizado pelo Conselho Nacional de Mulheres do Egipto, Fundação Hariri no Líbano e a Liga dos Estados Árabes. O acordo entrou em vigor em Março de 2003. Estes processos históricos nos lançam dentro do cenário que muitos de nós encoraja e espera ver realizado: o da emancipação da mulher no Médio Oriente por forma a que alguns preconceitos possam rapidamente passar a história!
Notícias relacionadas com mulheres serem eleitas para cargos governamentais deixaram de ter importância em muitos lugares do mundo, mas no Médio Oriente quando isso acontece, todos olhamos para esse facto e começamos a conjecturar as consequências positivas que daí podem advir. No passado sábado, 16 de Maio, realizaram-se as eleições parlamentares no pequeno emirado do Kuwait, que tem 3,44 milhões de habitantes, 2,35 milhões dos quais estrangeiros sem direito a voto, detendo 10 por cento das reservas petrolíferas mundiais e que produz 2,2 milhões de barris de petróleo diários. Nestas, as mulheres conseguiram entraram pela primeira vez no parlamento do Kuwait, ao garantiram a eleição de quatro representantes. Nestas legislativas há ainda a destacar o recuo dos partidos islamistas sunitas que perderam grande parte dos lugares que detinham. A Aliança Islamista Salafista ficou apenas com dois lugares, ao passo que o Movimento Constitucional Islâmico recuou apenas para um lugar. Por outro lado, a minoria xiita conseguiu aumentar o número dos seus lugares no parlamento de cinco para nove, tendo os representantes das tribos do país obtido uma importante vitória, ao também conseguirem aumentar a sua representação.
De acordo com os resultados publicados no dia seguinte (17 de Maio), Massama al-Mubarak, liberal e ex-ministra da Saúde, uma das quatro mulheres que conseguiu a eleição, conseguiu mesmo vencer toda a concorrência na circunscrição em que concorria. A juntar-se a ela, outras duas liberais, Aseel Al Auadhi e Rula Dashti, assim como a independente Salua Al Jassar entrarão para a nova Câmara. Elas estudaram nos Estados Unidos e têm doutorados em ciências políticas, economia e educação. No total, 16 mulheres, que perfazem 54.3% dos 385 mil eleitores, participaram entre os 210 candidatos dessa disputa que elegeu os 50 deputados do parlamento kuwaitiano. Esta é a terceira vez que as mulheres participam das eleições para o Parlamento desde que obtiveram o direito de voto e à representação em 2005. Nas últimas eleições, de 2006 e 2008, nenhuma foi eleita.
Estas foram as terceiras eleições no Kuwait desde Maio de 2006, todas provocadas pelo emir do país, o xeque Sabah al-Ahmad al-Sabah, que, em Março, voltou a dissolver o parlamento do país, devido a querelas entre legisladores e governo. Contudo o povo Kuwaitiano está pouco confiante de que a votação irá acabar com um conflito entre parlamentares e o Gabinete que tem atrasado reformas económicas. A nova assembléia deverá votar um pacote de estímulo econômico no valor de 5 bilhões de dólares, visto como crucial para ajudar o setor financeiro do país a superar a crise econômica global. As medidas foram aprovadas em março pelo gabinete provisório, que é dominado por membros da família do soberano e pelo próprio soberano, Sheikh Sabah al-Ahmad al-Sabah, que dissolveu a última Assembleia. As medidas devem agora ser aprovadas também pela nova Assembleia.
Não há partidos políticos no Kuwait, o quarto maior exportador de petróleo do mundo. No entanto, conservadores islâmicos e líderes tribais, que se opuseram aos planos económicos do governo e pressionaram os ministros, dominaram o cenário novamente e continuarão, ao que tudo indica, a pressionar, mesmo podendo perder alguns votos devido à crescente frustração popular. A nação do Golfo Pérsico é a única democracia parlamentar da região. O Kuwait é dividido em dez circunscrições eleitorais, as quais elegem dez deputados cada uma.
Olhando para eleição destas quatro mulheres em país em que elas constituem 44 por cento da força laboral, a maior do Golfo, percebemos que as mulheres estão a conquistar o seu espaço e a procurar se emancipar. Na verdade, quando se fala das mulheres desta região, o nome da Rainha Ránia da Jordânia vem a mente pelo trabalho que ela tem feito no sentido de procurar mostrar que as mulheres do Médio Oriente têm mais para ‘dar’ do que aquilo que se conhece delas a partir da história das mil e uma noites. Outros nomes relevantes nesta luta são os da descrita como a arquitecta da expansão da Educação do Qatar, Sheika Mozah Al-Missned, mulher do Emir do Qatar, que ultrapassou as barreiras do seu país através do desenvolvimento de projectos inovadores para melhorar o ensino. Mozah, a única mulher pública do xeque Hamad Bin Khalifa al Thani, é enviada especial da UNESCO para a educação básica e superior e desde 2005 membro do grupo de alto nível da Aliança de Civilizações (tive o prazer de ouví-la no recente Forum da Aliança que teve lugar mês passado em Istambul). Mas seu forte é o âmbito educacional. Em 2003 promoveu a constituição de um fundo internacional para a educação superior no Iraque, e em seu país é madrinha da Cidade da Educação, um megacampus situado nas redondezas de Doha, com faculdades das melhores universidades americanas, como Carnegie Mellon ou Georgetown. A xequesa recebeu doutorado honoris causa de todas elas. E a revista "Forbes" a incluiu em 2007 na lista das cem mulheres mais influentes do mundo.
O casamento do xeque Mohamed Bin Rashid al Maktoum do Dubai com a meio-irmã do rei Abdallah da Jordânia, Haya, fez Dubai ganhar peso político e multiplicou a atração do emirado. Haya, 25 anos mais moça que o marido, é a mãe de seu décimo nono filho. Embaixadora da boa vontade do Programa Mundial de Alimentos da ONU e presidente da Federação Hípica Internacional, Haya, que na juventude frequentou os hipódromos espanhóis, é um valor agregado por sua proximidade do rei hachemita.
No fundo e como li algures, todas essas primeiras-damas constituem um importante trunfo na hora de vender o Golfo para os investidores estrangeiros, mas não é só uma questão cosmética. E embora a primeira-dama do Catar seja a mais exibicionista, por assim dizer, a mais aficionada às câmeras, por trás dessa projeção midiática, inédita na região, está uma realidade inapelável, a de que esses países estão diminuindo a diferença de gênero. Até a Arábia Saudita, o mais conservador de todos os estados do Golfo, foi capaz de pela primeira vez, a 14 de Fevereiro 2009, indicar uma mulher para o Conselho de Ministros. Nesse dia, o Rei Abdulla nomeou Norah al-Faiz para o novo posto de ministra da Educação Feminina. Ela disse na ocasião: “Estou muito orgulhosa por ter sido selecionada para uma posição de tanto prestígio”, desejando que outras mulheres ocupem cargos importantes no futuro.
Portanto, estas movimentações procuram, até certo ponto, desmentir que a mulher no Médio Oriente é subjugada e tem pouco papel para o desenvolvimento da região. Aliás, um dos factores que é sempre usado para criticar os países desta região tem a ver com a forma como a mulher se posiciona na sociedade e dentro deste espírito, foi criada a Organização da Mulher Árabe ou AWO (Arab Women Organization). O AWO (http://www.arabwomenportal.org/) é uma organização intergovernamental criada sob a égide da Liga dos Estados Árabes e com sede no Egipto. Resulta do Declaração Cairo emitida pela Primeira Cimeir das Mulheres Árabes que se reuniu em Cairo, em Novembro de 2000 em resposta a um apelo lançado pela Suzanne Mubarak, Primeira Dama do Egipto, que foi co-organizado pelo Conselho Nacional de Mulheres do Egipto, Fundação Hariri no Líbano e a Liga dos Estados Árabes. O acordo entrou em vigor em Março de 2003. Estes processos históricos nos lançam dentro do cenário que muitos de nós encoraja e espera ver realizado: o da emancipação da mulher no Médio Oriente por forma a que alguns preconceitos possam rapidamente passar a história!
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