Sudão do Sul ou Mais um Estado Africano na Forja?‎

“Certamente as diferenças religiosas fizeram parte do conflito, mas falar de guerra de religião é errado. Na realidade tratou-se de uma guerra pelos direitos dos povos do Sul”. Padre Kizito, Camboniano que viveu no Sudão do Sul,in:http://www.30giorni.it/br/articolo.asp?id=7969

“Mas é preciso ter cuidado: desestabilizar o Sudão é muito perigoso, corre-se o risco de desintegrar toda a área. Também não se pode excluir a priori um diálogo com o regime sudanês que, como todos os regimes, é uma síntese de várias realidades e, ao lado dos duros, há pessoas razoáveis com as quais pode-se obter um diálogo”. Stefano Squarcina, secretário adjunto da União Européia para as relações com o Terceiro Mundo, in:
http://www.30giorni.it/br/articolo.asp?id=7969


Um destes dias estava a actualizar os canais de televisão no satélite da Hotbird e descobri um canal de "um país" estranho e com uma bandeira parecida com a de Moçambique (conforme a foto documenta). Perdi ali alguns minutos a entender de que canal se tratava e de que "país" se tratava. Então, descobri que se tratava do Sudão do Sul, uma região autônoma de Sudão, composta por 10 estados deste país. Pela natureza do meu trabalho, tenho o privilégio de privar com muitos diplomatas, e nesta quarta-feira tive uma conversa com um diplomata sudanês que me deu um "briefing" em relação à toda esta história e me confidenciou que o uso da bandeira, um simbolo de soberania, era uma clara violação do tratado de Naivasha, assinado em 9 de janeiro de 2005 em Nairóbi, Quênia entre John Garang, então líder Exército Popular de Libertação do Sudão (SPLA/M), e o governo sudanês em que este concordou em dar autonomia a região do Sudão do Sul por forma a terminar uma guerra que sangrenta que durava há 22 anos. Por causa desta conversa, julguei interessante partilhar com o caro leitor o que a minha investigação acabou "parindo". Este artigo é mais baseado no artigo "Sudão entre guerra e paz" da autoria de Davide Malacaria, disponível em: http://www.30giorni.it/br/articolo.asp?id=7969
A Guerra no sul do Sudão e o Tratado de Naivasha
O conflito no sul do Sudão eclodiu em 1983, quando foi introduzida a Shari'ah, ou lei islâmica, nas regiões meridionais deste país. Os povos do sul, que são na maioria animistas e cristãos, se revoltaram contra o governo. A guerra provocou mais de dois milhões de mortos, milhões de refugiados e devastações imensas até a altura da acordos de Naivasha. O conflito do sul do Sudão é, na realidade, muito complexo. Muitas vezes, afirma-se que os muçulmanos do norte oprimem os cristãos do sul, dando uma validade religiosa à guerra. Na realidade, o factor religioso é somente um dos elementos, que esconde todos os outros. A religião se torna, assim, uma desculpa para encobrir os interesses mais concretos, como por exemplo, o facto de se uma guerra económica. Mas, este approach não espanta, considerando que a religião move massas e envolve emoções, facilitando a condenação fácil de quem se julga "oprimido".

É importante salientar a questão da religião neste conflito porque muitas vezes foi argumentado entre analistas, observadores internacionais e a media que o conflito entre o Norte e o Sul do Sudão era uma guerra entre o Norte árabe e muçulmano e o Sul animista e cristão. Mas é uma definição que não fotografa uma realidade que é bem mais complexa e articulada. No Sudão não houve uma guerra de religião, pois no início do conflito, 1983, os movimentos de libertação do Sul eram de inspiração marxista-leninista. As coisas começaram a mudar na metade da década de 1990 quando a direita americana descobriu a existência de petróleo no Sudão e a guerrilha logo quis aproveitar a ocasião, conseguindo credenciar-se como movimento cristão para obter ajudas políticas e económicas. Um erro no qual caíram, mesmo em boa-fé, alguns eclesiásticos do Sul. Essa confusão levou, algumas vezes, a uma falta de denúncia dos abusos da guerri­lha contra a população do Sul, mas principalmente favoreceu o credenciamento da guerrilha como um movimento cristão. Por outro lado, para entender que não se tratou de guerra de religião é suficiente ver o que aconteceu nos Montes Nuba, onde a repressão militar agiu particularmente contra a população civil e a resistência armada em uma guerra santa colocou no mesmo lado cristão e muçulmanos.

Contudo, o sul, de facto, é privado de todas as riquezas. Não somente do petróleo, mas também da madeira apreciada (mogno tek, etc.). Nas regiões que eram controladas pelo exército governamental, inteiras florestas desapareceram. Os soldados, quando conquistassem uma cidade, deixavam de pé somente os muros: levavam tudo embora, móveis decorativos, e até mesmo os umbrais das portas. Há ainda fatores étnicos e culturais, alguns muito antigos: por exemplo, a herança da escravidão praticada pelos povos do norte contra aqueles do sul, que tem motivações raciais. Mas o conflito norte-sul não explica tudo. O exército governamental, por exemplo, é formado por pessoas originárias do sul. Isso porque, para muitos, recrutar-se é o único modo para sobreviver. O salário de um soldado, de fato, é superior a de um professor universitário. Quem se opunha às tropas governamentais era o Exército de Libertação do Povo Sudanês (SPLA), o principal grupo de guerrilha do Sudão meridional que era John Garang que morreu vítima da queda de um helicóptero em que seguia a 03 de Agosto de 2005.

Voltando ao tratado de Naivaisha, um dos pontos principais do mesmo prevê, não por acaso, a divisão dos recursos petrolíferos entre o governo de Cartum e a administração autônoma das regiões meridionais. Por outro lado, este acordo sancionou a repartição do Sudão em duas áreas geopolíticas distintas, Norte e Sul, que teríam cada uma um governo e exército próprio, mas continuando a fazer parte de uma mesma nação por um período de transição de seis anos. Na sequência deste tratado, a Constituição Interina do Sudão do Sul foi assinada em 5 de dezembro de 2005, e prevendo, para 2011, a realização de um referendo onde o povo da região decidirá pela manutenção da autonomia regional estabelecida no tratado de Naivasha, da Constituição Interina do Sudão do Sul e da Constituição National Interina da República do Sudão de 2005, ou pela independência. Aliás, o diplomata sudanês que anteriormente mencionei, me revelou que a sociedade sudanesa está mergulhado em um fervoroso debate em relação ao citado referendo, dado que os do Norte, que não vão votar, questionam o porquê dessa situação se o desfecho do processo pode afectar as suas vidas, mas que se fossem chamados a votar, escolheriam a secessão (palavra usada para identificar uma separação ou afastamento de uma região dentro de um estado para se tornar independente deste) dado que se "livraríam" do problema que é ter de assumir as despesas estatais dos sulistas. Por outro lado, os do Sul, por causa da má gestão dos seus actuais líderes, não quer se separar da nação, acreditando que a secessão poderá atrasar o já atrasado desenvolvimento da região.

Contudo, importa lembrar que o ponto chave que desencadeou a verdadeira batalha são as percentages sobre os lucros do petróleo, que é abundante no subsolo do Sul e que, através do tratado de Naivasha, foram divididos em 50% entre Norte e Sul. No citado tratado, chegou-se a um acordo sobre a liberdade de religião, mas não estava previsto um processo de democratização interno, nem no Norte nem no Sul. Com efeito, se no Norte está em vigor um regime autoritário, é verdade também que, no Sul, John Garang esmagou todas as oposições internas e marginalizou os outros movimentos de libertação que não concordavam com seus desígnios.

Termino, deixando alguns dados geográficos para informar que além da divisa com o Sudão ao norte, o Sudão do Sul faz fronteira a leste com a Etiópia, ao sul com o Quênia, Uganda e República Democrática do Congo e a oeste com a República Centro Africana. O Sudão do sul, também chamado de Novo Sudão, possui quase todos os seus órgãos administrativos em Juba, a capital, que é também a maior cidade, considerando a população estimada.

Convêm aqui deixar um parênteses para elucidar que o conflito em Darfur tem, ao invés, uma origem diferente e não se deve confudir com o do Sudão do Sul, dado que Darfur (que em árabe significa “casa dos Fur” por os habitantes da região se chamare Fur) sempre foi uma região muito pobre, sem recursos e infra-estruturas. Vou continuar a acompanhar, sempre que puder, as emissões do canal Southern Sudan TV para ver o que a história vai parir, se um novo estado africano ou manutenção do status quo prevalencente, têm a palavra os sudaneses do sul!

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