Que Implicações Traz a 1ª Base Naval Francesa no Golfo Pérsico?‎

“A França mostra assim que está pronta a assumir todas as suas responsabilidades para garantir a estabilidade nesta região essencial para o equilíbrio do mundo”, afirmou Sarkozy, durante a cerimónia de inauguração, acompanhada pelo vice-primeiro-ministro e ministro do Interior dos Emirados, sheik Seif ben Zayed Al-Nahyane.

Nicolas Sarkozy desde que se tornou presidente mostrou a sua flexibilidade para reenvolver a França nos assuntos mais prementes para a segurança e pais globais. Veja-se o papel que ele teve enquanto Presidente-em-exercício da União Europea e o reassumir um papel de relevo na NATO. Na esteira destes desenvolvimentos, a França se instala, agora, através de uma base naval, inaugurada no passado dia 26 de Maio, em uma zona estratégica do Estreito de Ormuz. Oficialmente destinada ao abastecimento, a base pode ser rapidamente transformada em ponto de operação militar. Esta é a primeira vez que a França inaugura uma base militar fora de seu próprio território desde o fim da era colonial. A princípio, a ideia é manter uma base a caminho do Afeganistão, além de garantir a segurança do Estreito de Ormuz, por onde é transportado 40% de todo o petróleo consumido no mundo. Portanto, vamos procurar perceber qual o significado desta movimentação francesa em uma região em que há 30 anos eram completamente ausentes no sentido de se tornarem em um parceiro importante para as monarquias do Golfo com o intuito de “controlar” as movimentações do Irão e estar envolvido nas decisões relativas às maiores fontes energéticas mundiais.

Para se entender a importância de se estar estacionado no Estreito de Ormuz, vale lembrar que o mesmo é um pedaço de oceano relativamente estreito entre o Golfo de Oman ao sudeste e o Golfo Pérsico ao sudoeste. Na sua costa norte está o Irão e na costa sul os Emirados Árabes Unidos (EAU) e um enclave de Oman. Próximo da costa norte situam-se algumas ilhas, que incluem Kish, Qeshm, Abu Musa e as Tunbs Maior e Menor. Essas ilhas têm posições estratégicas enormes, funcionando com plataformas de controle do tráfego marítimo e que estão envolvidas em uma disputa entre a EAU e o Irão quanto a pertença das mesmas. Por outro lado, este estreito apresenta-se como uma zona tampão para o estado persa dado que este pode apoiar e encorajar o livre transporte de petróleo através do estreito de Ormuz, mas se reserva, como muitas vezes declara, a opção de fechar o estreito ao tráfego marítimo se o Irão estiver ameaçado.

Nesta perspectiva, a França, através desta base naval, também marca sua presença nas proximidades do Irão, um país que vem desafiando a comunidade internacional com seu programa nuclear. Na base francesa deverão ficar estacionados aproximadamente 500 soldados da Marinha, Exército e Aeronáutica. Sua construção foi financiada pelo governo dos Emirados Árabes Unidos, interessado em fortalecer as relações com um segundo parceiro estratégico, além dos Estados Unidos. No acto de inauguração, Sarkozy afirmou que Bildunterschrift: "A presença dos soldados franceses remete à responsabilidade que a França, como potência mundial, tem em relação a seus parceiros. E isso numa região de grande importância para todo o mundo". Segundo ele, a França consolida, assim, sua posição do lado dos Emirados Árabes Unidos.

Ao marcar uma presença económica, política, cultural – e agora militar – no Golfo Pérsico, o governo francês está respondendo a um convite de Abu Dhabi, cujos monarcas parecem não apostarem mais apenas no apoio norte-americano, mas também na cooperação com outras potências. Pelo menos é isso o que vem ocorrendo desde a Guerra do Iraque, em 2003, quando Washington passou por cima dos vizinhos árabes da região ao tomar a decisão de derrubar Saddam Hussein.

Por outro lado, há um interesse de se internacionalizar a segurança dado que otros países do Golfo seguem estratégias semelhantes ao internacionalizarem a responsabilidade pela própria segurança, explica Emile Hokayem, especialista em questões militares em Abu Dhabi: Bildunterschrift: "Eles sabem que a própria segurança não depende de sistemas bélicos ou da força militar, mas sim e principalmente de eles participarem de uma conexão global ou não. Por isso, delegam parte da responsabilidade pela própria segurança às potências mundiais. É por isso que tanto o Louvre, quanto uma base marítima vêm para cá. E é por isso que a Universidade Georgetown, de Washington, veio para o Qatar. Eles querem angariar o maior número possível de amigos. Amigos poderosos, obviamente. Essa é uma estratégia muito inteligente. Eles querem conscientemente se tornar parte das estruturas políticas e econômicas globais". A nova base francesa contém em si também o valor de mensagem política para os vizinhos árabes dos Emirados Árabes Unidos, o que Sarkozy não se coibiu de sublinhar: “A França está a aqui a envolver-se determinadamente ao lado dos seus amigos pela sua segurança”.

Contudo, esta base não bem vista pelo Irão que, em contrapartida, a sensação em relação à crescente presença militar ocidental no Golfo Pérsico é de ameaça. Isto seguindo o pensamento de Hokayem significa que "Os países árabes do Golfo querem internacionalizar a segurança regional. O Irão, por sua vez, requer a retirada de todos os soldados estrangeiros da região, pois assim Teerão assumiria o comando. Os países do Golfo têm, com certeza, o direito de decidir com quem selam alianças. E o Irão tem o direito de dizer que não quer ser agredido. Uma forma de conciliar essas duas posições depende de vários factores, também exteriores à região". No fundo, é preciso perceber que com a partida de Saddam Hussein, o Irão quer se tornar na potência hegemônica da região, algo que desagrada os árabes, aliás o próprio nome do Golfo está envolto em conflito dado que a Arábia Saudita exige que o nome seja Golfo da Arábia enquanto o Irão defende o que é internacionalmente aceite: Golfo Pérsico.

Reagindo à esta inauguração, um porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros declarou que para o Irão a decisão dos EAU é incoerente e não pode ser considerada como um movimento que irá melhorar a segurança regional. Para este, os EAU devem ser cuidadosos e deviam evitar alinharem-se com as políticas regionais dos estados ocidentais. Ele acrescentou que permitir que se aumente a presença militar estrangeira na região vai comprometer a segurança e a estabilidade e conduzirá a uma "corrida armamentista" porque alguns países estão a tentar dar a impressão, através de infundadas ameaças, que a região é insegura a fim de vender as suas armas. O porta-voz disse, é óbvio que esta decisão foi influenciada pelo fato de a França estar a enfrentar graves problemas económicos devido à crise financeira mundial. Este observador pode ter razão já que a França se tornou em um fornecedor líder militar para o Golfo Pérsico e assinou um acordo de cooperação nuclear com os EAU no ano passado.

É importante frisar que além de razões militares e geopolíticas, a França também tem motivos económicos para se estabelecer na região: os EAUs estão entre os principais consumidores de produtos franceses, desde armas até usinas nucleares, passando por instituições culturais e de educação. Segundo informa Paris, aproximadamente 50% dos equipamentos militares dos Emirados provêm da França. Durante sua visita a Abu Dhabi, Sarkozy também aproveitou para fazer propaganda do avião francês de combate Rafale. No passado recente, os Emirados Árabes Unidos encomendaram, em Paris, 60 aviões caça do tipo Mirage e 400 tanques de guerra. Além disso, Sarkozy ainda pôde se empenhar pelas empresas francesas de energia nuclear, que auxiliarão os Emirados Árabes quando estes passarem a fazer uso, a partir de 2017, da energia atômica. Teoricamente, apenas para fins pacíficos. Os Emirados Árabes são o único país do Médio Oriente que conseguiu criar um aparato jurídico que garante a segurança de reatores nucleares.
Portanto, a França se reinstala em força no Médio Oriente, dado que para além desta base militar, Sarkozy também inaugurou em Abu Dhabi (capital dos Emirados) as obras para a construção de uma dependência do Museu Louvre na cidade. A França e os Emirados Árabes assinaram, em 2007, um acordo bilionário, segundo o qual o país europeu se compromete a construir um "Louvre Abu Dabi", que deverá expor, entre outras coisas, obras emprestadas da sede parisiense. Sua inauguração está prevista para 2012 ou 2013.

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