Turquia Vira a Oriente com Israel a Servir de Peão...

“Depois de anos cortejando os europeus em busca de sua integração à União Europeia, a Turquia se volta para o Oriente, deixando de dar prioridade apenas ao que está ao norte e ao oeste de sua fronteira. Essa guinada representa uma mudança na política externa de Mustafá Kemal Ataturk, o líder nacionalista que secularizou e ocidentalizou o país quando o Império Otomano desmoronou, ao fim da 1.ª Guerra (1914-1918).” Gustavo Chacra[1]

“Não podemos permanecer calados em relação à atitude de Israel. Trata-se de poder desproporcional, enquanto recusa-se a obedecer as resoluções da ONU. Nunca poderemos aceitar esse quadro. Essas medidas ameaçam a paz global.” Erdogan, Primeiro Ministro turco, disse durante uma entrevista conjunta com o primeiro-ministro libanês Saad Hariri[2].

No ultimo episódio da série televisiva turva “Valley of the Wolves” ou “Vale dos Monstros”, um agente secreto turco toma de assalto uma embaixada israelita para salvar uma criança também turca, raptada pelos serviços secretos israelitas, a Mossad. O citado agente secreto turco mata um agente da Mossad e afirma que “não são só os israelitas que têm o direito de cometer crimes de guerra”. Foi este episódio que criou um incidente diplomático entre o país de Ataturk e Israel, dado que o último não gostou da acusação de estarem a “cometer crimes de guerra”. De imediato, ou seja na segunda-feira da semana passada (11 de Janeiro), Oguz Celikkol, Embaixador turco em Telavive, foi chamado para esclarecimentos junto ao ministério dos negócios estrangeiros israelita. O citado diplomata foi humilhado pelo vice-ministro dos Negócios Estrangeiros israelita, Danny Ayalon, que obrigou o diplomata turco a esperar no corredor, recusou-se a apertar-lhe a mão, e reservou-lhe uma cadeira mais baixa. Além disso, não colocou a bandeira turca na mesa de reunião. Tudo se passou em frente às câmaras televisivas em sinal de protesto contra a citada série televisiva considerada anti-semita por Israel. Na verdade, este incidente veio colocar a nu o ‘mau estar’ entre Israel e Turquia que vem deteriorando desde que o primeiro país se envolveu em uma guerra desnecessária contra o Hamas em Gaza faz agora exactamente um ano. Aliás, nessa altura, Ankara tivera sido dos mais críticos dessa intervenção militar.

Embora, Israel tenha pedido desculpas formais depois do citado incidente diplomático, é interessante olhar que o actual cenário do Médio Oriente mostra uma Turquia a se distanciar da Europa, a se aproximar dos árabes e outros vizinhos e outros países regionais importantes como Líbano, Irão e Arábia Saudita e a constantemente criticar Israel pelas suas políticas belicistas contra os palestinianos. Aliás, a tensão com Israel teve o seu pico quando Recep Tayyip Erdogan, o primeiro-ministro turco, envolveu-se em Janeiro de 2009 numa acesa discussão[3] com Shimon Peres, o presidente de Israel, num debate no Fórum Económico Mundial, em Davos, e, desagradado com o moderador do painel, abandonou o mesmo de forma intempestiva. A situação política no Médio-Oriente, e em particular o conflito Israel-Palestina eram o tema principal do debate, onde também estavam o secretário-geral das Nações Unidas Ban Ki-Moon, e o presidente da Liga Árabe Amr Moussa. Durante a tal operação israelita na faixa de Gaza o executivo turco foi extremamente crítico para com Israel - Erdogan apelidou então a operação militar israelita como “um crime contra a humanidade”, e chegou mesmo a propôr a expulsão de Israel da ONU. Durante o tenso debate, Erdogan e Peres trocaram acusações fortes: “Vocês sabem matar muito bem”, disse Erdogan, acrestando: “Todos nós sabemos como vocês mataram crianças nas praias de Gaza”. Peres respondeu de forma rígida, elevou a voz e, de dedo em riste, disse a Erdogan que se “rockets fossem disparados contra Istambul provavelmente faria o mesmo”. E acusou Erdogan de “não conhecer o Hamas”. Tratando Peres na primeira pessoa (em turco), o primeiro-ministro turco sugeriu que “a tua culpa é proporcional ao nível da voz utilizada”. O moderador cortou-lhe depois a palavra, após o qual Erdogan abandonou o debate de repente, dizendo que “era a última vez que participava numa cimeira em Davos”.

Na esteira deste incidente, Turquia decidiu excluir Israel de manobras aéreas em território turco e Telavive não gostou e disse que esta tinha sido um duro golpe para a Nato e os interesses norte-americanos. O governo de Ancara acabou por adiar as manobras militares mas rejeitou as críticas de Telavive: O primeiro-ministro Recep Tayp Erdogan afirmou que a “Turquia é um país poderoso” e que “não precisa de ninguém para tomar decisões”. Segundo Telavive, Ancara cancelou as manobras porque alguns aliados, nomeadamente os Estados Unidos, se recusaram a participar no exercício militar sem os israelitas.

Por outro lado, Erdogan em Outubro passado visitou oficialmente o Irão para assinar vários acordos de cooperação que deverão duplicar os investimentos no país. Durante o encontro com o presidente Mahmoud Ahmadinejad, Erdogan defendeu o direito de Teerão a desenvolver um programa nuclear com fins pacíficos e elogiou a posição iraniana nas negociações internacionais para aceitar o enriquecimento de urânio no estrangeiro. Sinal também do reforço das relações entre o governo islamita moderado e o regime islâmico, o elogio da posição de Teerão face a Israel. Erdogan considerou como “uma loucura” a hipótese de um ataque militar às infraestruturas nucleares iranianas.
Como que a procurar mostrar Israel de que ele, Erdogan, tinha a coragem o suficiente para continuar a pôr em sentido aquele país, quando ele visitou o Líbano na passada semana, ele acusou Israel de ameaçar a paz na região de Médio Oriente e de usar força desproporcional contra os palestinianos. Erdogan pediu que Israel paresse de violar o espaço aéreo e as águas territoriais do Líbano. Pediu também que o Conselho de Segurança da ONU impusesse a Israel a mesma pressão que faz ao Irão.
Para Gustavo Chacra[4], “A política externa turca se divide em dois ramos. No primeiro, as questões que afetam diretamente a política interna, como os curdos, a Armênia e o Chipre. O outro envolve questões geopolíticas mais amplas, como os gasodutos que atravessam o país, a guerra no Iraque, as relações com o mundo árabe e a Europa, a presença de tropas no Afeganistão e o papel da Turquia como modelo de república democrática secular, onde o islamismo predomina. Em alguns pontos, como no conflito cipriota, os dois ramos se confundem, com os europeus forçando os turcos a encontrarem uma solução para ilha mediterrânea, com uma metade, de maioria grega, integrando a União Europeia, e a outra, turca, não sendo reconhecida por nenhum outro país do mundo.”
Para mim neste modelo apresentado por Chacra, estamos a ver uma Turquia manifestamente a virar-se para a região do Médio Oriente procurando se envolver directamente com os assuntos diários que afligem a região dado que esse posicionamento tem fortificado domestica e internacionalmente a figura de Erdogan no seio do mundo muçulmano. Esta situação, faz com que o seu partido se sinta confortável para continuar a governar a Turquia, dado que a opinião pública turca, de maioria muçulmana, encontra no AKP (Partido da Justiça e Desenvolvimento) uma voz que defenda os seus direitos e que apoia, incondicionalmente, o inalienável direito do povo palestiniano a soberania e independência da colonização israelita. Por outro, me parece que Erdogan sente que o “sonho da União Europeia” não passará de uma linda ilusão que ajudaria a reconciliar o mundo ocidental com o muçulmano. Isto vem a propósito do referendo suíço que proibiu a construção de novos minaretes em seu território, o debate actual sobre a “identidade francesa” que muitos vêem como um questionamento contra os muçulmanos e o efeito dominó que a proibição das vestes muçulmanas, principalmente, as que dizem respeito a mulher tem sido adoptadas em muito do espaço europeu, ou seja, Erdogan, julgo eu, percebeu que a Europa está nervosa com a crescente presença muçulmana e está a fazer de tudo para os afastar das suas froteiras, daí que seria ilógico adicionar mais de 75 milhões de muçulmanos, o número da população turca.

Como que a confirmar que o “show” de Davos tinha mudado a forma como a Turquia e o seu líder eram vistos no seio do mundo muçulmano, Erdogan se tornar um heroi no mundo muçulmano, tanto que no momento que escrevo estas linhas, ele está em visita oficial à Arábia Saudita onde, dentre várias actividades, recebeu pela mão do Rei Saudita o Prémio Internacional do Rei Faisal pelos Serviços ao Islam e no momento em que foi entrevistado a chegada a Riyadh, Erdogan disse: “Não há nada mais natural para a Turquia em mostrar preocupação pelos palestinianos e por Gaza, não porque nós somos muçulmanos, mas porque somos humanos”[5]...faz tempo que Israel não tinha um líder que lhe causava tantos desafios e desconforto e o pior para Israel é esse mesmo líder ter virado para Oriente e ter juntado a sua volta árabes, persas e todos que se revêem na política opressiva israelita.

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