As Eleições no Irão ou O Iniciar de Uma Nova Revolução?‎

“Já disse antes que tenho profunda preocupação quanto à eleição. Acho que o mundo está profundamente preocupado com isso. Mas dada a história das relações entre os Estados Unidos e o Irão, não seria proveitoso ver o presidente dos Estados Unidos interferindo nas eleições iranianas.” afirmou Obama comentando sobre as eleições no Irão.

“É muito difícil escrever sobre as eleições no Irão. A informação não é muita e muita dela é deturpada. Se for para negar a legitimidade da vitória da Ahmadinejad não faltará quem aplauda, seja boa ou má a informação que a sustenta. Se, pelo contrário, for para fazer uma análise tanto quanto possível objectiva não faltará quem a ataque e tenda a ver nela o que realmente se não disse.” JM Correia Pinto


Sempre ouvi, devo confessar que algum despreso, que a história a ela mesma se repete, embora possa haver alguns dados diferentes, mas os processos e os factos de quando em vez se repetem e facilitam a análise para quem tenha uma tal missão. Isto vem a propósito das eleições do dia 12 de Junho na República Islâmica do Irão e a contestação dos resultados pela massa popular, principalmente os estudantes, o que, julgo eu, pode estar a propiciar um processo histórico similar o de há 30 anos. Em 1979 os estudantes iranianos receberam de braços abertos o exilado Ayatollah Khomeini e tiveram um papel relevante na instalação da revolução que trouxe uma república islâmica em um país que entretanto era secular e estava alinhado aos Estados Unidos da América. E em plena Guerra Fria esta situação acabou "afastando" o Irão para a esfera soviética, em uma relação que perdura nos dias de hoje. Aliás, o ano de 1979 foi crucial para a história recente do Médio Oriente, dado que foi também neste ano que Saddam Hussein liderou um golpe de estado para se instalar no poder e iniciar uma nova história de confrontações e luta pela hegemonia no Golfo Pérsico, em particular e no Médio Oriente, no geral.

Confesso que esperei, com algum nervosismo e ansiedade, pelo anúncio dos resultados no último sábado. Todavia, e enquanto faltavam mais de 30 milhões (!) de votos por contar, como contou o John Stuart no seu programa Daily Show do dia 17 de Junho na CNN, o actual presidente era dado como reconduzido ao poder. Quero crer que é esta 'monstruosidade' de números que leva aos protestos que temos seguido na televisão, dado que se considerarmos que dos 46,2 milhões de eleitores 82% votaram na décima eleição presidencial, estaríamos a falar de aproximadamente 38 milhões de votantes e se o anúncio foi feito com 10% de votos contados é porque há 'um gato com rabo de fora' porque seria tremendamente difícil contar tantos votos em apenas um dia, a não ser que fosse o voto electrónico como acontece no Brasil, Estados Unidos, etc, onde as projecções são feitas em tempo real. Aliás, os estudantes 'perceberam', na minha óptica, que estes números não correspondiam a verdade e iniciaram os protestos que, em última circunstância, leva a que a autoridade que zela pelas eleições no Irão (o Conselho dos Guardiões) se decidisse pela contagem parcial dos votos, que algumas fontes dizem ser de 11 milhões, algo que muda nada no cenário actual. (Para uma análise de números, veja o The Guardian)

Pelos resultados oficiais, Ahmadinejad vence com mais de 60% dos votos. Mussavi e seus correligionários acusam Ahmadinejad de manipulação eleitoral. Dentre as possíveis irregularidades estão:
1. Muitos eleitores não puderam exercer seu direito ao voto porque os colégios fecharam cedo demais;

2. Mais de 40% dos colégios eleitorais da capital ficaram sem observadores por causa da confusão supostamente causada pelo Ministério do Interior;
3. Muitos dos delegados tanto de Moussavi quanto do outro candidato reformista, Mehdi Karrubi, não puderam atuar, pois os credenciamentos que receberam "tinham erros, e inclusive fotos alteradas".
4. A ausência de cédulas nos colégios eleitorais, apesar de terem sido confeccionadas ao menos cinco milhões a mais que o necessário.

O Conselho dos Guardiães do Irã, órgão legislativo do país, recebeu as queixas oficiais de fraude eleitoral e se diz preparado para recontar os votos.

Quero crer que se o líder da oposição, o reformador Mir Hussein Mousavi, tivesse ganho, e torcia para que isso tivesse acontecido, as ruas de Teerão estariam a testemunhar o mesmo número de pessoas nas ruas, mas a celebrar a mudança histórica no país, dado que este prometia mudanças radicais, que, em alguma medida, não encontram sustentação no poder religioso, como seja o relacionamento com os EUA, o programa nuclear, as liberdades políticas dos cidadãos iranianos, principalemente as mulheres, etc. Talvez seja esta torrente de mudança que está a forçar o que pode vir a tornar-se em uma nova revolução. Neste caso e em país com regime, que continua fechado, tal como fechou a comunicação social e proíbe tudo o que consegue proíbir para evitar que o mundo e os outros iranianos percebam o que lá se está a passar no país, esta revolução está a usar os meios tecnológico que, por exemplo, ajudaram Obama a ser o 44º Presidente dos EUA. Os jovens iraniamos estão a fazer uma revolução informativa utilizando as novas tecnologias. Com base no telemóvel e na Internet estão a fazer o que os meios tradicionais não conseguem fazer. Ninguém está a conseguir parar a corrente informativa com origem no Irão e que mostra muita manifestação popular contra e a favor de Ahmadinejad.

Até a dispora iraniana se tem manifestado nas diversas capitais ocidentais reclamando actos por parte da comunidade internacional para resolver o bicudo problema das eleições. Aproveitando a onda, a selecção nacional de futebol do Irão, na Coreia do Sul para onde se deslocara para jogar a qualificação para o próximo mundial e já sem nenhuma possibilidade de se qualificar (contrariamente o que os comentadores da TIM diziam no programa desportivo desta quarta-feira a noite), apresentou-se com fitas verdes, que representam a oposição, em um sinal fortíssimo de manifestação de apoio a revolução que pode brevemente chegar ao Irão. Será que o jogo foi transmitido no Irão?

No fundo e segundo os resultados oficiais Ahmadinejad ganhou e Musavi perdeu, dois terços dos eleitores votaram no actual presidente e um terço no candidato da oposição. O resultado da eleição não agradou à União Europeia, nem à América e seus aliados mais próximos: Canadá, Austrália, Nova Zelândia, Japão, Israel, Arábia Saudita e Egipto. Mas foi recebido com naturalidade pelos grandes países emergentes, pelos aliados árabes (que não são muitos) e por países da América Latina, como a Venezuela, Bolívia e Cuba.Musavi não aceitou a derrota e queixa-se de fraudes eleitorais.

Termino com um parágrafo de JM Correia Pinto que sustenta que fraudes, embora existam, ninguém consegue provar como fundamento da derrota. Irregularidades, como sempre acontece em todas as eleições, terá havido, mas do que se escreve sobre o assunto parece depreender-se que elas pouco ou nada influenciaram o resultado eleitoral. De qualquer modo, os apoiantes de Musavi, a maior parte deles oriundos das áreas urbanas e, portanto, muito mais abertos a mudanças porventura num sentido mais laico da vida política, puseram nesta eleição uma grande expectativa. A derrota frustrou-os e o apelo de Musavi levou-os à rua, onde protestaram com veemência. Apesar de não se assumirem abertamente como anti-sistema, a verdade é que eles puseram em causa a “ordem pública”, e as autoridades iranianas, à semelhança de todas as autoridades que velam pela manutenção da ordem e do “sistema”, reagiram contra os manifestantes. Esta reacção desagradou aos ocidentais e a avaliar pela ênfase que nela puseram é de admitir que também eles não tenham argumentos mais fortes para contestar a derrota: foi também uma expectativa, posto que mais ténue, que se frustrou. As reacções na administração americana, por agora o que mais interessa, ainda não são muito claras e parece até haver alguma dessintonia entre a prudente declaração de Hillary Clinton e as ásperas palavras de Joe Biden, posto que matizadas pela necessidade de melhor informação. Mas tudo aponta no sentido de os americanos – os grandes responsáveis pela queda de democracia laica em Teerão [quando patrocinaram a queda do democraticamente eleito Muhammad Mousaddeq em 1953 para instalem uma monarquia que service os seus interesses] – terem de suportar por tempo por agora indefinido a democracia religiosa do Irão. E então se verá se o discurso do Cairo é mesmo para levar a sério.

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