Um Olhar às Eleições no Líbano
“É um grande dia para a história do Líbano democrático”, declarou Saad Hariri aos apoiantes quando anunciou a vitória nas legislativas.
“Aceitamos os resultados (eleitorais) com um espírito desportivo de democrático. Aceitamos o facto de que o campo rival obteve a maioria dos lugares no parlamento”, disse Hassan Nasrallah, dirigente máximo do movimento xiita libanês Hezbollah, num discurso transmitido pela televisão libanesa.
O Médio Oriente parece que caminha para aquilo que os ocidentais gostam de apelidar de modernização, dado que se começa a replicar, entre outras coisas, os modelos de fazer política, optando-se pela democracia, mais no sentido simplista de eleger e ser eleito sem que para isso se obedeça à uma determinada linhagem familiar de traspasse do poder, prática de monarquias, mas que se verifica(va) em algumas das repúblicas desta região. No fundo, a questão familiar continua a ter um peso relevante como no caso do Egipto (perfila-se o filho de Hosni Mubarak para a sucessão) ou da Síria (o actual presidente é filho do antigo presidente Hafiz Assad), mas, me parece que o povo já começa a tomar decisões de quem os deve governar. Isto vem a propósito das eleições no Líbano, o antigo mandato (a forma sedutora que a antecessora das Nações Unidas, a Liga das Nações, decidira apelidar a colonização) Francês do Médio Oriente, onde os libaneses foram às urnas no domingo passado para eleger os novos representantes das 128 cadeiras do Parlamento do país. Creio que estas eleições podem ser decisivas para o futuro do Líbano e para o balanço de poder na região.
Actores:
1. Coligação “Aliança 14 de Março”, o nome deriva da data da chamada “Revolução dos Cedros”, no período que compreende o assassinato de Rafik Hariri (antigo Primeiro-Ministro) em 14 de fevereiro e 14 de março de 2005, data de um mega comício feito em resposta ao também mega comício realizado em 8 de março pelo Hezbollah. É o campo da direita e extrema direita. Possuem entre eles falangistas (de inspiração fascista e ideologia nacional-sindicalista), drusos (são uma pequena comunidade religiosa autónoma que reside sobretudo no Líbano, Israel, Síria, Turquia e Jordânia (pequenas comunidades expatriadas existem ainda nos EUA, Canadá, América Latina, Austrália, e Europa). Eles usam a língua árabe e seguem um modelo social muito semelhante ao dos Árabes da região. Não são considerados muçulmanos pela maioria dos muçulmanos da região, apesar de alguns drusos dizerem que a sua religião é islâmica. Existem cerca de um milhão de drusos em todo o mundo, a maioria dos quais vivendo no Médio Oriente), maronitas (Igreja Maronita é uma Igreja particular sui juris católica, do rito oriental, em plena comunhão com a Sé Apostólica, ou seja, reconhece a autoridade do Papa, o Sumo Pontífice da Igreja Católica. Tradicional no Líbano, a Igreja Maronita possui ritual próprio, diferente do rito litúrgico latino adotado pela esmagadora maioria dos católicos ocidentais. O rito maronita prevê a celebração da missa em língua aramaica e em língua siríaca) entre outros.
O primeiro ministro Fouad Siniora (sunita) pertence à esta coligação cujo líder é Saad Hariri, filho de Rafik Hariri. O Partido principal que encabeça a coligação é o Movimento Futuro. São seculares, mas maioritariamente sunitas e pró-imperialistas. Dessa coligação/aliança participam outros partidos importantes: Partido Socialista Progressista, cujo líder é Walid Jumblat, filho de Kamal Jumblat que, no passado, jogou papel importante, mas hoje se alinhou ao campo conservador; Forças Libanesas (extrema direita, cujo líder é Samir Geagea); Bloco de Trípoli e Democracia Radical. Ao todo a aliança possui 20 partidos e movimentos registrados. Eles pretendem manter o controle do governo, com a indicação do futuro primeiro Ministro, que deve ser sempre um sunita.
2. A Coligação “8 de Março”, o nome deriva de um imenso comício realizado em 8 de março de 2005, quando mais de um milhão de pessoas foram às ruas de Beirute (capital do Líbano) para agradecer a presença da Síria no Líbano, que acabava de se retirar. Aqui cabe o registo que o general cristão Michel Aoun, ainda que tenha integrado o campo mais conservador num primeiro momento, e que sempre foi anti-Síria quando esteve exilado na França por 15 anos, mas em 2006 muda de posição e integra esse campo oposicionista. Assim, os principais líderes desse bloco, dessa Aliança são: Movimento Patriótico Livre, do general Aoun (cristão, mas oficialmente secular); Hezbollah (xiita), cujo líder é Hassan Nasralláh; Movimento Amal (xiitas, mais moderados), cujo líder é Nabih Bérri. Há ainda a presença de cristão maronitas, armênios, seculares entre outros. Ao todo, são 39 partidos e/ou movimentos e grupos que integram essa aliança. Registre-se a presença ainda do pequeno, mas com dois deputados Partido Socialista Árabe Baath e do Partido Nacional Social Sírio, com dois deputados e cujo líder é Assad Hardan.
O sistema eleitoral:
“Aceitamos os resultados (eleitorais) com um espírito desportivo de democrático. Aceitamos o facto de que o campo rival obteve a maioria dos lugares no parlamento”, disse Hassan Nasrallah, dirigente máximo do movimento xiita libanês Hezbollah, num discurso transmitido pela televisão libanesa.
O Médio Oriente parece que caminha para aquilo que os ocidentais gostam de apelidar de modernização, dado que se começa a replicar, entre outras coisas, os modelos de fazer política, optando-se pela democracia, mais no sentido simplista de eleger e ser eleito sem que para isso se obedeça à uma determinada linhagem familiar de traspasse do poder, prática de monarquias, mas que se verifica(va) em algumas das repúblicas desta região. No fundo, a questão familiar continua a ter um peso relevante como no caso do Egipto (perfila-se o filho de Hosni Mubarak para a sucessão) ou da Síria (o actual presidente é filho do antigo presidente Hafiz Assad), mas, me parece que o povo já começa a tomar decisões de quem os deve governar. Isto vem a propósito das eleições no Líbano, o antigo mandato (a forma sedutora que a antecessora das Nações Unidas, a Liga das Nações, decidira apelidar a colonização) Francês do Médio Oriente, onde os libaneses foram às urnas no domingo passado para eleger os novos representantes das 128 cadeiras do Parlamento do país. Creio que estas eleições podem ser decisivas para o futuro do Líbano e para o balanço de poder na região.
Actores:
1. Coligação “Aliança 14 de Março”, o nome deriva da data da chamada “Revolução dos Cedros”, no período que compreende o assassinato de Rafik Hariri (antigo Primeiro-Ministro) em 14 de fevereiro e 14 de março de 2005, data de um mega comício feito em resposta ao também mega comício realizado em 8 de março pelo Hezbollah. É o campo da direita e extrema direita. Possuem entre eles falangistas (de inspiração fascista e ideologia nacional-sindicalista), drusos (são uma pequena comunidade religiosa autónoma que reside sobretudo no Líbano, Israel, Síria, Turquia e Jordânia (pequenas comunidades expatriadas existem ainda nos EUA, Canadá, América Latina, Austrália, e Europa). Eles usam a língua árabe e seguem um modelo social muito semelhante ao dos Árabes da região. Não são considerados muçulmanos pela maioria dos muçulmanos da região, apesar de alguns drusos dizerem que a sua religião é islâmica. Existem cerca de um milhão de drusos em todo o mundo, a maioria dos quais vivendo no Médio Oriente), maronitas (Igreja Maronita é uma Igreja particular sui juris católica, do rito oriental, em plena comunhão com a Sé Apostólica, ou seja, reconhece a autoridade do Papa, o Sumo Pontífice da Igreja Católica. Tradicional no Líbano, a Igreja Maronita possui ritual próprio, diferente do rito litúrgico latino adotado pela esmagadora maioria dos católicos ocidentais. O rito maronita prevê a celebração da missa em língua aramaica e em língua siríaca) entre outros.
O primeiro ministro Fouad Siniora (sunita) pertence à esta coligação cujo líder é Saad Hariri, filho de Rafik Hariri. O Partido principal que encabeça a coligação é o Movimento Futuro. São seculares, mas maioritariamente sunitas e pró-imperialistas. Dessa coligação/aliança participam outros partidos importantes: Partido Socialista Progressista, cujo líder é Walid Jumblat, filho de Kamal Jumblat que, no passado, jogou papel importante, mas hoje se alinhou ao campo conservador; Forças Libanesas (extrema direita, cujo líder é Samir Geagea); Bloco de Trípoli e Democracia Radical. Ao todo a aliança possui 20 partidos e movimentos registrados. Eles pretendem manter o controle do governo, com a indicação do futuro primeiro Ministro, que deve ser sempre um sunita.
2. A Coligação “8 de Março”, o nome deriva de um imenso comício realizado em 8 de março de 2005, quando mais de um milhão de pessoas foram às ruas de Beirute (capital do Líbano) para agradecer a presença da Síria no Líbano, que acabava de se retirar. Aqui cabe o registo que o general cristão Michel Aoun, ainda que tenha integrado o campo mais conservador num primeiro momento, e que sempre foi anti-Síria quando esteve exilado na França por 15 anos, mas em 2006 muda de posição e integra esse campo oposicionista. Assim, os principais líderes desse bloco, dessa Aliança são: Movimento Patriótico Livre, do general Aoun (cristão, mas oficialmente secular); Hezbollah (xiita), cujo líder é Hassan Nasralláh; Movimento Amal (xiitas, mais moderados), cujo líder é Nabih Bérri. Há ainda a presença de cristão maronitas, armênios, seculares entre outros. Ao todo, são 39 partidos e/ou movimentos e grupos que integram essa aliança. Registre-se a presença ainda do pequeno, mas com dois deputados Partido Socialista Árabe Baath e do Partido Nacional Social Sírio, com dois deputados e cujo líder é Assad Hardan.
O sistema eleitoral:
Os membros do Parlamento libanês são eleitos por meio de um sistema confessional. Por esse sistema, todos os grupos religiosos do país têm representação garantida na casa. As 128 cadeiras do Parlamento são divididas de maneira igual entre muçulmanos e cristãos, com cada grupo ficando com 64 assentos (embora a proporção de cristãos na população tenha declinado desde que o sistema foi elaborado). Pelo sistema, os muçulmanos sunitas têm 27 cadeiras, o mesmo número concedido aos muçulmanos xiitas. Os drusos têm direito a oito assentos e os alauítas (vertente distante dos xiitas), duas. Entre os cristãos, 34 cadeiras são reservadas aos maronitas, 14 para os ortodoxos gregos, oito para católicos romanos, seis para devotos da Igreja Armênia, e duas para outras minorias cristãs. Os parlamentares são eleitos para mandatos de quatro anos por 26 distritos eleitorais. Todos os libaneses acima de 21 anos têm o direito de votar, residam ou não no Líbano. Para um melhor entendimento do sistema político libanês veja aqui.
Resultados:
A coligação cessante, o Movimento “14 de Março” apoiada pelo Ocidente no Líbano venceu as legislativas organizadas domingo (08 de Junho), obtendo 71 dos 128 lugares do Parlamento, contra 57 para a minoria liderada pelo Hezbollah xiita apoiado pelo Irão e a Síria. Com a vitória eleitoral Saad Hariri vê-se pela segunda vez em quatro anos na liderança da maioria parlamentar no Líbano e com a possibilidade de formar governo.
Havia muitos motivos domésticos para os eleitores darem a vitória à coligação apoiada pelos Estados Unidos nestas eleições parlamentares, mas analistas políticos, como Michael Slackman do New York Times, também a atribuem em parte à campanha do presidente Barack Obama de estender a mão ao mundo árabe e muçulmano. A maioria dos analistas previa que a coligação liderada pelo Hizbollah, já uma força crucial no governo libanês devido ao apoio que recebe dos xiitas, que correspondem à maioria da população do Líbano, venceria com conforto. No final foi o contrário. Slackman afirma que é difícil extrair conclusões firmes de uma única eleição. Mas pela primeira vez em muito tempo, estar alinhado aos Estados Unidos não provocou uma derrota no Médio Oriente.
E como o Líbano sempre foi um terreno de teste crítico, isso pode marcar uma mudança significativa na dinâmica regional, com outra grande eleição, no Irão, que se realiza hoje (12 de Junho). Com o discurso de Obama sobre as relações com os muçulmanos ainda fresco na mente dos eleitores libaneses, os analistas apontaram para os passos dados pelo governo desde que tomou posse. Washington agora propõe conversar com os financiadores do Hizbollah, o Irão e Síria, em vez de confrontá-los - uma medida que mina a tentativa do grupo de satanizar os Estados Unidos. Os americanos também não estão mais pressionando seus aliados no governo libanês a desarmar unilateralmente o Hizbollah, o que, dada a considerável força do partido, poderia ter provocado uma crise.Na verdade, alguns analistas disseram que é possível que a eleição no Líbano possa ser um prenúncio da disputa presidencial de hoje no Irão (de que me debruçarei com algum detalhe no próximo artigo), onde um presidente linha-dura antiamericano, Mahmoud Ahmadinejad, pode estar perdendo terreno contra seu principal oponente moderado e reformista, Mir Hussein Moussavi. Apesar de Ahmadinejad ter se tornado cada vez mais impopular por muitos motivos, incluindo sua condução problemática da economia, analistas políticos disseram que Obama minou o apelo do confronto de Ahmadinejad com o Ocidente.
Os resultados no Líbano também podem dificultar ainda mais para Israel explorar o temor de domínio do Hezbollah e desviar o assunto do processo de paz com os palestinianos - uma tática que muitos analistas daqui atribuem ao primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. Todavia, há muitos outros fatores em ação que não dependem dos Estados Unidos. A eleição libanesa fez pouco para mudar o equilíbrio de poder em um país onde o Hezbollah é de longe o agente mais forte. Os cristãos, que exerciam um papel moderador e tradicionalmente pendiam para os Estados Unidos, não são uma força política em nenhum outro lugar na região. E provavelmente levará semanas, até mesmo meses, até que todos os lados possam concordar na composição do novo governo, sugerindo que a paralisia que frequentemente envolve o governo do Líbano poderá continuar.
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