A Estratégia Americana no Afeganistão: Consequência do Prémio Nobel ou Nem Por isso?
“Oito anos após o enganosamente rápido derrubada dos Talibãs, as perspectivas para a missão liderada pela OTAN no Afeganistão parecem pior do que nunca. Cada baixa ocidental, todos os esforços e cada piedosa homilia política sobre a "justeza" e "necessidade" da guerra parecem apenas deixar a missão irremediavelmente a chafurdar na mais profunda falta de esperança.”artigo do The Economist
Recentemente estive em Maputo e em conversa com um grupo de amigos, entre outros assuntos, discutimos a justeza ou a falta dela na entrega do prémio Nobel da Paz 2009 ao Presidente Obama. Eu sempre defendi que, embora Obama pouco ou nada de tangível ainda tenha feito, alguns prémios são mais para responsabilizar e encorajar os seus destinatários a uma acção mais profícua e de resultados práticos. Um dos meus amigos, porém, me dizia que este prémio foi entregue para mostrar ao povo americano que o 'mundo' estava grato que ele, o Obama, pelo menos, não era George W. Bush e que o 'mundo' se encontrava contagiado pelo discurso romântico de Obama. Mas, depois pergunto, quem então merecia este ambicionado prémio este ano? Eu não sei porque a paz tem sido discurso de pouca gente e quem a defende, como eu, são pessoas com pouca expressão para que sejam considerados pelo Comité Nobel. Contudo, julgo que Obama começa a justificar este prémio, principalmente na guerra do Afeganistão que arrasta há oito anos.
Aliás, convêm lembrar que no dia em que o prémio foi anunciado, 09 de Outubro, Obama ainda se encontrava no aconchego do seus cobertores e mais tarde acordaria para dirigir um encontro com as mais altas patentes militares e civis para decidir na melhor estratégia do imbróglio afegão. Nesse dia, me lembro de ver a CNN e o pivot, procurando adicionar alguma ironia ao momento, ao contactar o repórter residente na Casa Branca, comentou: "É estranho que o Prémio Nobel da Paz seja anunciado no dia que o seu receptor vai discutir uma estratégia de guerra". Ora sobre esta estratégia, a conceituada revista The Economist na edição desta semana procura analisar a mesma no artigo intitulado The War in Afghanistar: Obama's War (A Guerra no Afeganistão: A Guerra do Obama)[1] onde se destaca o pedido feito pelo Comandante das forças da OTAN (Organização do Tratado Atlântico Norte e não NATO como incorrectamente muitas vezes dizemos, dado esta é a sigla em inglês), General Stanley McChrystal para o envio de um largo número de contigente de forças americanas para 'resolver' o imbróglio a que, neste momento, a guerra se encontra.
Na verdade, o título do próprio artigo do The Economist, na minha opinião, mostra que existe, depois do Prémio Nobel, dois Obamas que estão em guerra entre si: o anterior ao prémio que poderia fazer o que fosse necessário para militarmente trazer a paz no Afeganistão e o actual que deve procurar pacificamente resolver a questão afegã. Todavia, já se notam alguns sinais positivos, pois tenho dúvidas que o anterior Obama pressionasse o actual presidente, Hamid Karzai, a uma segunda volta eleitoral, que vai acontecer no dia 07 de Novembro próximo, dado que esteve claro que as eleições tinham acontecido dentro de um clima pouco legítimo para o vencedor. O novo Obama não pode ser visto como apoiante de um governo ilegítimo. Aliás, a legitimidade do governo afegão pode e vai jogar um papel extremente grande na resolução da própria guerra ou mesmo no traçar de uma nova estratégia americana para a mesma, já que com um novo presidente em Kabul, precisar-se-ia entender e conhecer as suas alianças tribais, principalmente junto aos 'senhores da guerra', estas que jogam um papel muito importante na relação entre o governo central, as tribos, e os que, constantemente, procuram desestabilizar todo o sistema nacional afegão: os Talibãs.
No artigo que venho a citar, fala dos Talibãs como um grupo que já ultrapassa as fronteiras do Afeganistão, pois a partir do Paquistão desestabilizam aquele país, levando os eleitores ocidentais a vasculhar na sua memória o porquê das suas tropas estarem a ser mortas quase que diariamente na terra do ópio. Ora, o artigo procura responder a esta questão e diz que há três fortes argumentos para que os ocidentais se mantenham no Afeganistão: i) o ocidente tem um interesse de segurança para impedir a região de cair em um turbilhão de conflitos. Paquistão, com 170 milhões de pessoas e armas nucleares, é vulnerável a potente mistura do Taliban de etnia pashtun com nacionalismo e islamismo extremista. A anarquia no Afeganistão, ou a restauração dos Talibãs, seria deixar o país preso a uma permanente instabilidade das suas fronteiras; ii) a derrota para o Ocidente no Afeganistão encorajaria seus adversários, não apenas no Paquistão, mas em todo o mundo, deixando aquele país aberto para mais ataques; e iii) a retirada representaria uma traição terrível ao povo afegão, cujos alguns problemas são o resultado da intervenção ocidental.
Ou seja, há poucas opções para serem tomadas sem que arruine toda uma estratégia que visa a criar um país estável e longe da influência dos Talibãs. Mas, o caro leitor, pode e deve se perguntar, porque interessa tanto a estabilidade do Afeganistão para os EUA e seus aliados ocidentais? Oficialmente, os custos de guerra no Afeganistão estão orçados em 65 bilhões de dólares no ano fiscal de 2010, um pouco mais do que os 61 bilhões de dólares para a guerra no Iraque, esta será a primeira vez que isso acontece. Oficialmente este dinheiro é gasto para que o Afeganistão fique livre da Al-Qaeda e seu líder Ossama Bin Ladden. Todavia, é preciso entender as 'outras' razões e ou interesses da presença ocidental naquele país:
i) O interesse geo-político – Afeganistão é um país estrategicamente cercado pela China, Irão, Paquistão e outros países da Ásia Central e pelo seu relevo, caracteristicamente montanhoso e elevado, facilita o controle e fácil acesso, em termos militares, à estes países mencionados. Convêm lembrar que estando no Afeganistão, assegura-se ainda a presença no mundo muçulmano, se inteira do funcionamento da Organização de Cooperação Shanghai que compreende China, Rússia, Cazaquistão, Quirguistão, Tadjiquistão e Uzbequistão e ainda os países do sudeste asiático.
Recentemente estive em Maputo e em conversa com um grupo de amigos, entre outros assuntos, discutimos a justeza ou a falta dela na entrega do prémio Nobel da Paz 2009 ao Presidente Obama. Eu sempre defendi que, embora Obama pouco ou nada de tangível ainda tenha feito, alguns prémios são mais para responsabilizar e encorajar os seus destinatários a uma acção mais profícua e de resultados práticos. Um dos meus amigos, porém, me dizia que este prémio foi entregue para mostrar ao povo americano que o 'mundo' estava grato que ele, o Obama, pelo menos, não era George W. Bush e que o 'mundo' se encontrava contagiado pelo discurso romântico de Obama. Mas, depois pergunto, quem então merecia este ambicionado prémio este ano? Eu não sei porque a paz tem sido discurso de pouca gente e quem a defende, como eu, são pessoas com pouca expressão para que sejam considerados pelo Comité Nobel. Contudo, julgo que Obama começa a justificar este prémio, principalmente na guerra do Afeganistão que arrasta há oito anos.
Aliás, convêm lembrar que no dia em que o prémio foi anunciado, 09 de Outubro, Obama ainda se encontrava no aconchego do seus cobertores e mais tarde acordaria para dirigir um encontro com as mais altas patentes militares e civis para decidir na melhor estratégia do imbróglio afegão. Nesse dia, me lembro de ver a CNN e o pivot, procurando adicionar alguma ironia ao momento, ao contactar o repórter residente na Casa Branca, comentou: "É estranho que o Prémio Nobel da Paz seja anunciado no dia que o seu receptor vai discutir uma estratégia de guerra". Ora sobre esta estratégia, a conceituada revista The Economist na edição desta semana procura analisar a mesma no artigo intitulado The War in Afghanistar: Obama's War (A Guerra no Afeganistão: A Guerra do Obama)[1] onde se destaca o pedido feito pelo Comandante das forças da OTAN (Organização do Tratado Atlântico Norte e não NATO como incorrectamente muitas vezes dizemos, dado esta é a sigla em inglês), General Stanley McChrystal para o envio de um largo número de contigente de forças americanas para 'resolver' o imbróglio a que, neste momento, a guerra se encontra.
Na verdade, o título do próprio artigo do The Economist, na minha opinião, mostra que existe, depois do Prémio Nobel, dois Obamas que estão em guerra entre si: o anterior ao prémio que poderia fazer o que fosse necessário para militarmente trazer a paz no Afeganistão e o actual que deve procurar pacificamente resolver a questão afegã. Todavia, já se notam alguns sinais positivos, pois tenho dúvidas que o anterior Obama pressionasse o actual presidente, Hamid Karzai, a uma segunda volta eleitoral, que vai acontecer no dia 07 de Novembro próximo, dado que esteve claro que as eleições tinham acontecido dentro de um clima pouco legítimo para o vencedor. O novo Obama não pode ser visto como apoiante de um governo ilegítimo. Aliás, a legitimidade do governo afegão pode e vai jogar um papel extremente grande na resolução da própria guerra ou mesmo no traçar de uma nova estratégia americana para a mesma, já que com um novo presidente em Kabul, precisar-se-ia entender e conhecer as suas alianças tribais, principalmente junto aos 'senhores da guerra', estas que jogam um papel muito importante na relação entre o governo central, as tribos, e os que, constantemente, procuram desestabilizar todo o sistema nacional afegão: os Talibãs.
No artigo que venho a citar, fala dos Talibãs como um grupo que já ultrapassa as fronteiras do Afeganistão, pois a partir do Paquistão desestabilizam aquele país, levando os eleitores ocidentais a vasculhar na sua memória o porquê das suas tropas estarem a ser mortas quase que diariamente na terra do ópio. Ora, o artigo procura responder a esta questão e diz que há três fortes argumentos para que os ocidentais se mantenham no Afeganistão: i) o ocidente tem um interesse de segurança para impedir a região de cair em um turbilhão de conflitos. Paquistão, com 170 milhões de pessoas e armas nucleares, é vulnerável a potente mistura do Taliban de etnia pashtun com nacionalismo e islamismo extremista. A anarquia no Afeganistão, ou a restauração dos Talibãs, seria deixar o país preso a uma permanente instabilidade das suas fronteiras; ii) a derrota para o Ocidente no Afeganistão encorajaria seus adversários, não apenas no Paquistão, mas em todo o mundo, deixando aquele país aberto para mais ataques; e iii) a retirada representaria uma traição terrível ao povo afegão, cujos alguns problemas são o resultado da intervenção ocidental.
Ou seja, há poucas opções para serem tomadas sem que arruine toda uma estratégia que visa a criar um país estável e longe da influência dos Talibãs. Mas, o caro leitor, pode e deve se perguntar, porque interessa tanto a estabilidade do Afeganistão para os EUA e seus aliados ocidentais? Oficialmente, os custos de guerra no Afeganistão estão orçados em 65 bilhões de dólares no ano fiscal de 2010, um pouco mais do que os 61 bilhões de dólares para a guerra no Iraque, esta será a primeira vez que isso acontece. Oficialmente este dinheiro é gasto para que o Afeganistão fique livre da Al-Qaeda e seu líder Ossama Bin Ladden. Todavia, é preciso entender as 'outras' razões e ou interesses da presença ocidental naquele país:
i) O interesse geo-político – Afeganistão é um país estrategicamente cercado pela China, Irão, Paquistão e outros países da Ásia Central e pelo seu relevo, caracteristicamente montanhoso e elevado, facilita o controle e fácil acesso, em termos militares, à estes países mencionados. Convêm lembrar que estando no Afeganistão, assegura-se ainda a presença no mundo muçulmano, se inteira do funcionamento da Organização de Cooperação Shanghai que compreende China, Rússia, Cazaquistão, Quirguistão, Tadjiquistão e Uzbequistão e ainda os países do sudeste asiático.
ii) Interesse económico – o Afeganistão possui reservas inexploradas de petróleo que podem facilmente se tornarem em mais uma fonte de pujança económica americana através do investimento nesta área por parte das indústrias petrolíferas americanas. Por outro lado, é preciso assegurar que jogo que envolve a distribuição do gás natural pelos países da Ásia Central seja controlado por forma não criar um desequilíbrio económico a desfavor dos americanos. E estando no Afeganistão assegura-se o normal trânsito do gás pelos seus aliados.
iii) A questão nuclear – sendo Paquistão uma nação nuclear declarada e que não faz parte do tratado de não-proliferação, é justo que os americanos olhem para este país e se assegurem que esse poder não cai em mãos erradas, por isso, perto de um bilião de dólares é alocado ao Paquistão anualmente para 'fazer frente' ao terrorismo, cá por mim, é mais para assegurar que as suas armas nucleares fiquem muito bem guardadas e é fácil fazer esse controle a partir do afeganistão.Ora, como se vê, o Afeganistão, como parte da preocupação americana e ocidental, tem a sua justificação e voltando a citar o artigo do The Economist, uma estratégia de sucesso neste país tem que, necessariamente, ter três componentes: i) um governo credível e legítimo com quem trabalhar, ii) os recursos para alimentar toda a estratégia e iii) a crença que o presidente americano está por detrás desta guerra. Assim, na minha opinião, talvez depois da segunda volta eleitoral se possa obedecer ao primeiro critério, por forma a que o segundo se justifique já que o terceiro nunca esteve em dúvida, pois é mais do que óbvio que o futuro da pujança política, militar e económica dos EUA, como super-potência, ironicamente, está nas mãos do Afeganistão, é preciso ganhar esta guerra para que os países que aspiram 'derrotar' os americanos não se sintam encorajados a fazê-lo...tem a palavra o Nobel da Paz de 2009!
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