Os Cenários Involvidos no Acordo Sobre o Dossier Nuclear Iraniano
“Antes pediam o fim, hoje aceitam a troca de combustível, a participação para a construção de reatores e centrais nucleares. Passaram da política de confronto à cooperação.” declarou Ahmadinejad em um comício popular.
Um dos assuntos que acompanho com regularidade é o dossier nuclear iraniano. E pela sensibilidade e actualidade do mesmo, muito se tem escrito e visto na imprensa sobre os avanços e recuos quanto à um acordo entre Irão e as seis potências nucleares que querem prevenir que o estado persa também se junte ao clube: os EUA, a Rússia, a China, a Grã Bretanha, a França e a Alemanha. Desta vez há indícios de um acordo entre as partes, embora o presidente do Irão, Mahmud Ahmadinejad, citado pela Globo, tenha declarado nesta quinta-feira (29) que Teerão não irá recuar sobre seus direitos nucleares, mas que estava disposta a cooperar em assuntos relativos a combustível, tecnologia e centrais nucleares. O presidente falou em um discurso em Machhad, noroeste do país, exibido pela televisão estatal.
No mesmo discurso, Ahmadinejad disse que a provisão de combustível nuclear para o reactor de pesquisa de Teerão era uma oportunidade para seu país avaliar a "honestidade" das potências mundiais e da agência da ONU que lida com questões nucleares: a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), ele ainda acrescentou que as potências ocidentais passaram de uma política de confronto à cooperação na questão do programa nuclear iraniano.. Ahmadinejad fala no dia em que o país deve responder oficialmente à proposta da ONU para troca de combustível nuclear, que se espera que diminua a tensão envolvendo o programa nuclear iraniano. O representante iraniano na AIEA, Ali Asghar Soltanieh, deveria entregar nesta quinta-feira ao diretor da AIEA, Mohamed ElBaradei, a resposta oficial do país ao projeto de acordo que já foi aprovado por Rússia, Estados Unidos e França.
Espera-se que o Irão vai proponha à AIEA duas possibilidades para o fornecimento de urânio enriquecido em suas emendas ao projeto de acordo sobre o enriquecimento de combustível nuclear no exterior. O projeto prevê que o Irão entregue 1.200 quilos de urânio enriquecido a menos de 5% para ser processado e enriquecido a 19,75% na Rússia, antes da França fabricar "material nuclear" para o reator de Teerão.
Todavia, há uma questão que se pode tornar problemática, dado que Manouchehr Mottaki, Ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, afirmou que mesmo que haja um acordo referido acima, o seu país jamais abrirá mão de também enriquecer o urânio e, no fundo, as potências envolvidas na discussão deste projecto de acordo querem é mesmo que o Irão deixe de enriquecer qualquer quantidade daquele minério, pois acreditam que isso poderia levar a produção de armas nucleares, algo que foi sempre negado pelos iranianos.
Osama Al Sharif, um jornalista baseado na Jordânia, publicou nesta quarta-feira (28) um artigo de opinião em um dos diários sauditas em inglês, o Arab News. Ele coloca os cenários visto a partir da posição dos actores envolvidos em todo este processo. Por exemplo, a AIEA até agora tem aplaudido Teerão por sua colaboração e seu diretor, Mohamed El-Baradei, tem insistido que a diplomacia vai resolver o actual impasse. Contudo, Al Sharif questiona: "Mas será permitido que um acordo diplomático tenha sucesso?" Para isso é necessário perceber que:
I. Israel detestaria ver um final feliz para disputas do Irão com o Ocidente. Os israelitas fizeram ameaças directas contra as instalações nucleares do Irão e para eles a conclusão mais satisfatória para este caso seria a de destruir fisicamente activos nucleares iranianos. Muitos políticos americanos estão a favor desta posição de Israel, mas o presidente, Barack Obama, prometeu dar a diplomacia uma oportunidade justa e estaria relutante em involver os EUA em uma nova guerra contra um outro país muçulmano. Na verdade, o momento para planejar um novo confronto militar não poderia ser pior, com o reiniciar da violência no Iraque e a instabilidade no Afeganistão que leva este país à beira do colapso total.
II. Tal como os americanos, os seus aliados europeus, nomeadamente a França e a Alemanha, parecem hesitantes em considerar a opção militar e iniciar uma outra guerra no Golfo Pérsico em uma altura em que as suas opiniões públicas domésticas estão mais inclinadas a ser anti-invasões ou pacifistas.
III. A Rússia, que está desfrutando uma nova détente (ou redução de tensão) com os EUA após a decisão deste último de desistir de seu escudo europeu de defesa antimísseis, vai colocar pressão sobre Teerão, mas apenas o suficiente para manter os iranianos envolvidos no processo político. E os árabes continuam cautelosos quanto a intenções regionais do Irão, especialmente no Golfo, mas para o momento, adoptam uma atitude de "esperar para ver".
Al Sharif, no artigo que venho a citar, acredita que os iranianos estão plenamente conscientes de tais posições e, após os tumultos que se seguiram as eleições presidenciais de Junho passado, o presidente Mahmoud Ahmadinejad está a adoptar uma nova abordagem, que mantém seu governo envolvidos com o Ocidente, mas dá muito pouco em termos de concessões. Ele percebe que ficar no jogo polítco por tanto tempo quanto possível, agora é um fim do próprio jogo. Ele, provavelmente, vê os problemas de Obama no Iraque e no Afeganistão como cartões importante que ele pode usar para seu benefício no futuro. No fundo, o Irão pode fazer muito para ajudar os americanos a encontrar uma forma decente de sair do Iraque. O mesmo pode ser dito do Afeganistão, onde alguns relatos sugerem que o Talebãns podem ter actualizado seu arsenal, provavelmente com a ajuda do Irão. Uma confluência de questões poderão levar a um número de barganhas, ou mesmo um mega acordo que poderia resolver os problemas de todos envolvidos.
Um dos assuntos que acompanho com regularidade é o dossier nuclear iraniano. E pela sensibilidade e actualidade do mesmo, muito se tem escrito e visto na imprensa sobre os avanços e recuos quanto à um acordo entre Irão e as seis potências nucleares que querem prevenir que o estado persa também se junte ao clube: os EUA, a Rússia, a China, a Grã Bretanha, a França e a Alemanha. Desta vez há indícios de um acordo entre as partes, embora o presidente do Irão, Mahmud Ahmadinejad, citado pela Globo, tenha declarado nesta quinta-feira (29) que Teerão não irá recuar sobre seus direitos nucleares, mas que estava disposta a cooperar em assuntos relativos a combustível, tecnologia e centrais nucleares. O presidente falou em um discurso em Machhad, noroeste do país, exibido pela televisão estatal.
No mesmo discurso, Ahmadinejad disse que a provisão de combustível nuclear para o reactor de pesquisa de Teerão era uma oportunidade para seu país avaliar a "honestidade" das potências mundiais e da agência da ONU que lida com questões nucleares: a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), ele ainda acrescentou que as potências ocidentais passaram de uma política de confronto à cooperação na questão do programa nuclear iraniano.. Ahmadinejad fala no dia em que o país deve responder oficialmente à proposta da ONU para troca de combustível nuclear, que se espera que diminua a tensão envolvendo o programa nuclear iraniano. O representante iraniano na AIEA, Ali Asghar Soltanieh, deveria entregar nesta quinta-feira ao diretor da AIEA, Mohamed ElBaradei, a resposta oficial do país ao projeto de acordo que já foi aprovado por Rússia, Estados Unidos e França.
Espera-se que o Irão vai proponha à AIEA duas possibilidades para o fornecimento de urânio enriquecido em suas emendas ao projeto de acordo sobre o enriquecimento de combustível nuclear no exterior. O projeto prevê que o Irão entregue 1.200 quilos de urânio enriquecido a menos de 5% para ser processado e enriquecido a 19,75% na Rússia, antes da França fabricar "material nuclear" para o reator de Teerão.
Todavia, há uma questão que se pode tornar problemática, dado que Manouchehr Mottaki, Ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, afirmou que mesmo que haja um acordo referido acima, o seu país jamais abrirá mão de também enriquecer o urânio e, no fundo, as potências envolvidas na discussão deste projecto de acordo querem é mesmo que o Irão deixe de enriquecer qualquer quantidade daquele minério, pois acreditam que isso poderia levar a produção de armas nucleares, algo que foi sempre negado pelos iranianos.
Osama Al Sharif, um jornalista baseado na Jordânia, publicou nesta quarta-feira (28) um artigo de opinião em um dos diários sauditas em inglês, o Arab News. Ele coloca os cenários visto a partir da posição dos actores envolvidos em todo este processo. Por exemplo, a AIEA até agora tem aplaudido Teerão por sua colaboração e seu diretor, Mohamed El-Baradei, tem insistido que a diplomacia vai resolver o actual impasse. Contudo, Al Sharif questiona: "Mas será permitido que um acordo diplomático tenha sucesso?" Para isso é necessário perceber que:
I. Israel detestaria ver um final feliz para disputas do Irão com o Ocidente. Os israelitas fizeram ameaças directas contra as instalações nucleares do Irão e para eles a conclusão mais satisfatória para este caso seria a de destruir fisicamente activos nucleares iranianos. Muitos políticos americanos estão a favor desta posição de Israel, mas o presidente, Barack Obama, prometeu dar a diplomacia uma oportunidade justa e estaria relutante em involver os EUA em uma nova guerra contra um outro país muçulmano. Na verdade, o momento para planejar um novo confronto militar não poderia ser pior, com o reiniciar da violência no Iraque e a instabilidade no Afeganistão que leva este país à beira do colapso total.
II. Tal como os americanos, os seus aliados europeus, nomeadamente a França e a Alemanha, parecem hesitantes em considerar a opção militar e iniciar uma outra guerra no Golfo Pérsico em uma altura em que as suas opiniões públicas domésticas estão mais inclinadas a ser anti-invasões ou pacifistas.
III. A Rússia, que está desfrutando uma nova détente (ou redução de tensão) com os EUA após a decisão deste último de desistir de seu escudo europeu de defesa antimísseis, vai colocar pressão sobre Teerão, mas apenas o suficiente para manter os iranianos envolvidos no processo político. E os árabes continuam cautelosos quanto a intenções regionais do Irão, especialmente no Golfo, mas para o momento, adoptam uma atitude de "esperar para ver".
Al Sharif, no artigo que venho a citar, acredita que os iranianos estão plenamente conscientes de tais posições e, após os tumultos que se seguiram as eleições presidenciais de Junho passado, o presidente Mahmoud Ahmadinejad está a adoptar uma nova abordagem, que mantém seu governo envolvidos com o Ocidente, mas dá muito pouco em termos de concessões. Ele percebe que ficar no jogo polítco por tanto tempo quanto possível, agora é um fim do próprio jogo. Ele, provavelmente, vê os problemas de Obama no Iraque e no Afeganistão como cartões importante que ele pode usar para seu benefício no futuro. No fundo, o Irão pode fazer muito para ajudar os americanos a encontrar uma forma decente de sair do Iraque. O mesmo pode ser dito do Afeganistão, onde alguns relatos sugerem que o Talebãns podem ter actualizado seu arsenal, provavelmente com a ajuda do Irão. Uma confluência de questões poderão levar a um número de barganhas, ou mesmo um mega acordo que poderia resolver os problemas de todos envolvidos.
E se realmente o acordo se efectivar entre as todos os envolvidos neste dossier nuclear iraniano, o maior perdedor será Israel, dado que o Irão ganhará um reconhecimento e legitimidade internacionais para o seu programa nuclear, algo de que Israel não se pode orgulhar, considerando o facto de as suas instalações nuclares estarem para além dos inspectores da AIEA e Israel, mesmo que continue a ameaçar o Irão, jamais o atacará sem a bênção do Tio Sam. Aliás, para mim, resolvendo a questão nuclear iraniana, seria um enorme passo para resolver a questão palestiniana e ironicamente termino como na semana passada... tem a palavra o Nobel da Paz de 2009!
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