A Crise que Junta Mundo Distantes...

“O mundo vai seguir atentamente a América do Sul e os países árabes para ver se estes são capazes de implementar medidas que previnam a crise financeira de se tornar um terramoto político e social.” Lula da Silva, citado pelo jornal Saudi Gazette do dia 01 de Abril de 2009, p.12

Dia 01 de Abril, dia em que começa a cimeira do chamado G-20 na capital inglesa, dia em que é empossado o novo governo israelita liderado por Benjamin Netaniyahu, dia em que se noticia o encontro entre delegações de “low level” dos Estados Unidos da América e do Irão, dia em que também se noticia que, dentre várias decisões, na 21ª Cimeira da Liga Árabe, que decorreu entre os dia 30 e 31 de Março, se estreitaram os laços de cooperação com os 12 países que compõem a América do Sul...dia das mentiras e dia em que escrevo este artigo. Olho para todos estes acontecimentos e me pergunto se os mesmos não continuarão a mentir aos pobres cidadãos dos vários mundos afectados por aqueles quanto ao seu futuro e esperança de dias melhores.

Não vamos conversar sobre o G-20 porque eu poderia cair na tentação da efeméride e dizer pouca verdade aos caríssimos leitores, dado que os números que mais gosto são os da minha conta bancária e por ter certeza de que os economistas esmiuçarão o tema com melhor autoridade, me limitarei a mencionar, de quando em vez, este assunto. Dentre as prováveis “mentiras” acima descritas, a que mais me chamou atenção foi o estreitar de cooperação entre os países do continente mais latino do mundo e a região mais bafejada pela sorte de possuir o ouro negro que tanto elouquece os capitalistas. Na verdade, quando em 2005 os árabes e os latinos se sentaram à mesa na 1ª cimeira do género, em Brasília, mal estariam a prever que, como decidido, quatro anos depois se fossem tentar sentar por cima de uma crise criada “por sujeitos brancos e de olhos azuis”. No fundo, esta crise está a aproximar os desavindos, os distantes, os que pregam diferentes ideologias económicas, sociais, religiosas, políticas, etc. O que se mesmo pretende é que o mundo que hoje conhecemos, o dos despedimentos massivos e do consequente aumento do desemprego, o dos cintos apertados, o das crises nas bolsas e mercados, o da quebra na procura, e o das várias reuniões para reformular o que um dia foi o mais bem sucedido sistema económico, possa dar lugar ao mundo de que hoje temos saudades, um mundo em que pelo menos não existia o G-20 e o Maddof era visto como o profeta pregava a “religião” do ganho fácil.

Na verdade, quando Lula da Silva (Presidente do Brasil, país com estatuto de Observador da Liga Árabe desde 2003), Michelle Bachelet (Presidente do Chile), Hugo Chavez (Presidente do Venezuela, país com estatuto de Observador da Liga Árabe desde 2006) e outros líderes latinos se sentaram com 22 estados da Liga Árabe em Doha, Qatar, procuraram, na minha opinião, enviar uma mensagem para o Ocidente: os pobres também podem ter opção de escolha e se podem aproximar dos que se encontram distante, se estes os podem ajudar a melhorar. De facto, os líderes dos dois blocos têm o objectivo de formar uma parceria económica e uma aliança política nas instituições globais onde se discute o destino dos vários mundos. Se olharmos para os dois blocos, podemos perceber que há diferenças abismais: i) geografia; ii) religião, a América do Sul é predominatemente católica e os árabes são maioritariamente muçulmanos; iii) falam línguas diferentes, iv) têm usos e costumes bastante diveros e as tradições dos latinos são mais pela vida “relaxada” e liberal enquanto que os árabes são mais comedidos e conservadores. Todavia, há aspectos políticos e históricos que os podem aproximar, o facto de terem sofrido a colonização pela parte do ocidente e aspirarem a ter uma melhor posição nas instituições onde realmente se tomam decisões: como por exemplo no Conselho de Segurança da ONU. Economicamente, um recurso os une: o petróleo. A Arábia Saudita e a Venezuela são dos maiores produtores e exportadores mundiais daquele recurso e desde 2005 que as trocas comerciais entre os dois blocos triplicaram, ou seja, dos 11 biliões de dólares passou-se para os 30, é obra!

Por outro lado, estes dois blocos procuram estabelecer uma nova ordem mundial e, talvez, por isso, Hugo Chavez se tenha apressado, como dizem os nossos amigos da sociedade civil, a “capacitar” os líderes árabes com a sua ideia de mudar a divisa que se usa na paridade da compra do petróleo, ou seja, o presidente venezuelano recomenda que se pense numa moeda alternativa ao dólar americano porque numa realidade em que o capitalismo está em crise, é preciso criar alternativas à sul. Contudo, esta ideia pode não ser bem recebida no norte e Saddam Hussein deve estar a revirar-se lá no seu túmulo chamando atenção aos seus pares para não caírem nessa tentação sob pena de se juntarem a ele brevemente. Para quem seja menos atento, uma das causas da queda de Saddam Hussein foi a sua “ousadia” em alterar a paridade dólar-petróleo para euro-petróleo, pois há quem diga que com o monopólio da moeda americana sobre o ouro negro, este líquido sae “mahala” ao tio Sam!

Um outro facto a considerar nesta relação está no facto de se olhar para mandato de captura contra o presidente sudanês, Omar el-Bashir, segundo Chavez, como “um horror judicial e um desrespeito aos povos do Terceiro Mundo” porque, como sugere o presidente venezuelano, devia-se “instruir um mandatos de captura contra Bush e contra o presidente israelita [Shimon Peres]”. Esta condenação envia outra mensagem ao Ocidente: os dois blocos estão preparados para apoiar os seus e cementar a cooperação Sul-Sul.

Julgo que este encontro ao coincidir com a véspera do G-20 pode ter criado a consciência nos antigos colonialistas de que os seus antigos “filhos” já cresceram e podem responder pelo seu próprio destino e por isso devem ser actores relevantes no concerto das nações, numa altura em que a crise económica clama por toda e qualquer iniciativa para que o mundo volte a encontrar a sua estabilidade económica e, consequentemente, social.

A terminar, permitam que vos introduza brevemente a história da Liga Árabe.

Em 22 de março de 1945, por sugestão do Egipto, os líderes de seis países árabes (Egipto, Transjordânia [actual Jordânia], Iraque, Líbano, Arábia Saudita e Síria) se reuniram em Cairo, sede da organização, e decidiram formar a Liga e aprovar a sua Carta, o Yémen se tornou membro em Maio do mesmo ano. A Liga tem actualmente 22 membros. Esta é uma organização nacional e regional que visa promover a aproximação dos laços entre os Estados-Membros e a coordenar as suas políticas e seus planos económicos, culturais e de segurança com vista a desenvolver a cooperação colectiva, proteger a segurança nacional e a manutenção da independência e soberania dos Estados-Membros, aumentando assim o potencial de acção conjunta árabe em todos os domínios. A Cimeira dos Chefes de Estado, é o mais alto órgão de poder da Liga, e também um fórum do mundo árabe, a nível superior, dedicado à discussão das principais questões regionais. Para mais informações sobre a organização, por favor visite: http://en.wikipedia.org/wiki/Arab_League

Que o dia das mentiras não inspire os líderes mundiais a faltar com a sinceridade na sua vontade de devolver a esperança ao mundo quanto ao regresso dos sinais verdes nas economias mundiais e, consequentemente, no bolso de todos nós!

PS: deixo uma vênia de saudação aos nossos bravos “Mambas” pelo resultado fabuloso de domingo passado, pena que o árbitro eritreu não tenha validado aquele golo. Com aquele jogo, me “forçam” a equacionar uma ida à Tunis no próximo dia 06 de Junho!

Que a crise rapidamente se torne história!

Comments

Popular posts from this blog

A Vida na Arábia Saudita: Uma Monarquia que Proíbe Mulheres de Conduzir e ‎Outras Coisas...‎

BlackBerry Messenger ordered shut down

Será que é Verdade?