A Discriminação e a Necessidade do Diálogo: o Caso da Aliança das Civilizações

“Os Estados Unidos da América não estão em guerra contra o Islam.” Barack Obama discursando no Parlamento Turco no dia 06 de Abril de 2009.

“O caos económico e financeiro está a deteriorar o tecido das nossas sociedades: há gente sem trabalho, faminta, furiosa. Culpam o outro, buscam bodes expiatórios noutras crenças, noutras comunidades, o que é extremamente perigoso”, Jorge Sampaio, Alto Representante das Nações Unidas para a Aliança, discursando na abertura do Forum de Istambul, 06 de Abril de 2009

São 22 horas em Istambul (mais uma hora que Maputo no horário de verão) do dia 06 de Abril, está a chover, saudades da desta água que cai do céu porque onde eu vivo este fenómeno acontece uma ou duas vezes por ano. Eu e dois colegas mais velhos, já embaixadores de longa experiência, nos encontramos na viatura protocolar, de baixo de uma ponte perto do Estádio do Besiktas, as ruas estão bloqueadas, aliás o ‘nosso’ carro tem a sua frente dois reboques que não permitem que se avance e nem se recue. O motivo do ‘fusuê’ é a presença do Presidente Obama nas proximidades, ele que entre os dias 5 e 7 efectuava uma visita oficial à Turquia, a primeira em país de maioria islâmica. Não me chatiei com a espera porque essa espera era causada por uma figura que, na minha e na opinião de muitos, representa o iniciar de uma nova fase de diálogo entre os mundos, civilizações, culturas, religiões, etc. E calhou bem porque esta visita acontecia em paralelo à realização do Segundo Forum Anual da Aliança das Civilizações (AdC), este o tema que me pareceu interessante desenvolver no presente artigo.

Contudo, é pertinente falar de Istambul porque a cidade encerra em si o coexistir de diversas religiões e fomenta o diálogo de civilizações em cada espaço do seu chão onde todos os dias 18 milhões de pessoas aceitam e concordam em divergir as suas crenças, opiniões e formas de estar. Nesta cidade, até certo ponto, o munumento chamado Hagia Sofia resume a história da própria Turquia, dado que quando o Sultão Mehmet tomou a cidade, que se chamava Constatinopla, aos Bizantinos, aquele lugar de culto passou de igreja para mesquita e quando Kamal Ata-Turk formou a República da Turquia, o mesmo monumento foi transformado em museu. Ou seja, Istambul celebra a passagem do cristianimo para a era islâmica e desemboca no secularimo “ataturkiano”, o que demonstra a certitude da decisão em alojar o Forum da AdC nesta cidade, dado que este projecto nasceu para celebrar a diversidade cultural que o mundo teima em ignorar desde o 11 de Setembro de 2001 e procura recusar o paradigma do “choque das civilizações”, moldado pelo já falecido Samuel Huntigton e que “inspirou” a passada doutrina de política externa norte-americana, o famigerado “pre-emptive action” ou acção de prevenção que se materializou nas guerras do Afeganistão e Iraque.

Mas, urge a pergunta, de onde surge esta ideia da AdC? Na realidade, a ideia decorre como consequência da discriminação que, principalmente, os muçulmanos vinham e vêm sendo alvos desde os condenáveis ataques de 11 de Setembro. Desta feita, o primeiro-ministro espanhol, José Luís Zapatero, na Assembleia-Geral das Nações Unidas, em 2004 propôs um forum onde pudesse haver uma franco Diálogo das Civilizações e sugeriu a criação de uma Aliança das Civilizações. A ideia foi de imediato adoptada pelo ex-Secretário Geral da ONU, Koffi Annan. A Turquia, por seu lado, assumiria também a iniciativa, por intermédio do seu chefe de governo, Recep Erdogan. Fomentar o conhecimento do outro, o apreço pela diversidade e a consciência da crescente e inevitável interdependência entre povos e nações, eram os objectivos que a AdC se propunha atingir. Nesse sentido, Koffi Annan designou um conjunto de personalidades, conhecido por GAN (Grupo de Alto Nível), com a tarefa de lançar e sistematizar políticas que favorecessem aqueles objectivos. Presidido pelo ex-director da UNESCO, Frederico Mayor Zaragoza, o GAN conta com a presença, entre outros, do bispo anglicano sul-africano e Prémio Nobel da Paz, Desmond Tutu, do director da Biblioteca de Alexandria, Ismael Serageldin e do ex-presidente do Irão, Mohamed Kathami. O mesmo reuniu-se pela primeira vez em Novembro de 2005, em Palma de Maiorca, assumindo a elaboração de um relatório «concreto e prático», com medidas orientadas para a prossecução dos objectivos da AdC. Nesse relatório estabelece-se que as áreas de intervenção da AdC seriam 4: a juventude, os media, a migração e a educação. É importante realçar que o antigo presidente português, Jorge Sampaio, é o Alto Representante das Nações Unidas para a Aliança e foi eleito em 2007. (para mais informações veja: www.unaoc.org)

Segundo Fernando Martinho Guimarães, a AdC é uma resposta louvável às crescentes e preocupantes contradições dos nossos tempos. É que, se é verdade que a globalização, por via dos novos meios de informação e comunicação, proporcionou uma maior proximidade entre pessoas de latitudes geográfico-culturais distantes, assistimos também, por outro lado, à afirmação crispada de particularismos religiosos e culturais. Acresce que, contrariamente à implícita promessa de superação da miséria e da exclusão social inscrita no progresso técnico-científico, nos deparamos com dificuldades em ultrapassar as atávicas divisões entre ricos e pobres, entre os países que parecem tirar o melhor proveito da globalização financeira e económica e a parte do mundo que vê passar ao lado a possibilidade de acompanhar o ritmo do desenvolvimento. É dentro deste contexto que se deve entender o surgimento da Aliança das Civilizações, cuja preocupação mais imediata é a de levar à prática um conjunto de medidas – da saúde à educação, da cultura à ciência.
(veja: http://incomunidade.blogspot.com/2007/05/aliana-das-civilizaes.html)

No Forum de Istambul, a cidade das tulipas, e de acordo com dados dos organizadores, cinco chefes de Estado e de Governo e 31 ministros, além de líderes religiosos e membros da sociedade civil, totalizando 1.500 pessoas, participaram das cinco sessões gerais e das 12 reuniões de trabalho. A lista de "amigos" da AdC aumentou até 84 países e 17 organizações internacionais, dos 40 Estados que apoiaram inicialmente a entidade. Por isso, os organizadores turcos disseram que já se transformou em "uma influente iniciativa da ONU".

Uma das razões pela qual os co-patrocinadores da AdC se sentiram mais satisfeitos com o resultado foi pela participação do novo secretário-geral da NATO, Anders Fogh Rasmussen, antigo primeiro-ministro dinamarquês que esteve envolto na polémica das caricaturas que denigriram o Profeta Muhammad (SAW) em 2005 por se ter recusado a pedir desculpa ao mundo islâmico e ter defendido os artistas dos mesmos no contexto da liberdade de expressão. No entanto, Rasmussen pretende melhorar as relações da NATO com o mundo islâmico. O meu boss, Ekmeleddin Ihsanoglu, Secretário-Geral da Organização da Conferência Islâmica, considerou que as tensões entre o Ocidente e o mundo islâmico têm que ver com os problemas entre o Cristianismo e o Islam, propondo 'uma reconciliação histórica' entre estas duas religiões, tendo como exemplo a reconciliação entre o Cristianismo e o Judaísmo.
Senti a ausência de África neste Forum, talvez porque ainda a ideia se tenha apenas deslocado no norte e ainda não tenha descido à sul. Contudo, julgo que Brasil vai ajudar a trazer Áfria pela ligação umbilical que estas duas identidades territorias partilham baseada no passado colonial que Madrid e Istambul felizmente não têm. Aliás, o Presidente Sampaio, no encontro dos pontos focais da AdC dos vários países e organizações internacionais, que decorreu no dia 08, quando lhe foi apresentada esta constatação, afirmou que prosseguirá contactos com a União Africana por forma a que África não se alheie deste importante projecto para convergência das diversas formas de estar neste mundo que nos une. Se me permitem, recomendaria que a sociedade civil moçambicana começasse a se interessar por esta iniciativa por forma a transmitir aos que estarão a ouvir no Terceiro Forum Anual da AdC do Brasil as experiências positivas da pátria amada em acomodar diferentes raças, religiões, culturas, tradições numa forma de estar: a moçambicanidade!

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