Ocidente e Islam: De Conflito à Reconciliação e o Importante Papel de ‎Presidente Obama

“O perigo, penso eu, é quando os EUA, ou qualquer país, pensa que pode pura e simplesmente impor os seus valores noutro país, como uma história e cultura diferentes”.

“Embora não queira estabelecer metas temporais no processo, queremos ter a certeza de que, até ao fim deste ano, tenhamos, de facto, visto um grande progresso”.
Presidente Obama em entrevista à BBC em antevisão da sua visita ao Médio Oriente

Antes de as torres gêmeas do World Trade Center passaram a fazer parte da história, a relação entre o Ocidente e o Islam carecia de uma melhor classificação, contudo uma outra história, esta já de ódio e conflito se materializava no dia em que o mundo assistiu em directo ao mais duro golpe que os Estados Unidos da América (EUA) sofreram no seu solo depois de Pearl Harbour durante a 2ª Guerra Mundial. A partir desse dia ficava claro que os EUA alterariam a sua relação com o Islam, passando, como se verificou nos vários conflitos que foram acontecendo desde 11 de Setembro de 2001, a ter este como o seu principal “inimigo”. No fundo, esta necessidade foi criada, julgo eu, pela ausência de inimigos para que os EUA pudessem sempre testar os seus avanços tecnológicos na indústria armamentista, bem como pela necessidade de poder alimentar esta mesma indústria dado que a procura armamentista é proporcional à escalada de conflito e à ausência de segurança. Na verdade, a instabilidade no Iraque, no Afeganistão, no Líbano, nos territórios palestinianos aliada ao empobrecimento de relações inexistentes entre o Irão e os EUA por causa do dossier nuclear, bem como com a Síria apenas ajuda a manter o mundo islâmico, aos olhos do ocidente e de quem politicamente esteja “preso” a este, como a “bruxa” responsável pela perda de liberdade e outras conquistas do chamado mundo civilizado. Por isso não espanta que a relação entre os dois mundos se tenha tornado conflituosa, abrindo espaço para a emergência daquilo que hoje se institucionalizou na vida dos muçulmanos: a Islamophobia, conceito que encontra paralelismos com o de Xenofobia, contudo ali os muçulmanos e o Islam é que são o alvo enquanto no outro são os estrangeiros que sofrem discriminação, marginalização e incidentes de ódio para com eles.

Contudo, no dia 03 de Junho o mundo muçulmano recebeu o Presidente Obama quando inciou uma visita de algumas horas para poder estar com o Rei rei Abdullah bin Abdul Aziz, que esteve na origem da Iniciativa de Paz árabe aprovada em 2002 pela Liga Árabe que promete oficialmente reconhecer o Estado de Israel se este libertar os territórios árabes que “ocupou” na Guerra dos Seis Dias (1967). De acordo com o porta-voz da Casa Branca, Robert Gibbs, Obama procurará demonstrar “que os Estados Unidos procuram um relacionamento diferente” com o mundo muçulmano, além de pretender avançar nas negociações para um acordo de paz entre israelitas e palestinianos. Antes de partir, Presidente Obama disse querer “seriamente recolocar no bom caminho” o processo de paz no Médio Oriente e sublinhou a necessidade de uma certa firmeza em relação a Israel sobre a criação de um Estado palestiniano e a colonização judaica. Neste seu papel de reconciliador, foi importante, antes de ir à Cairo, ter passado da Arábia Saudita por forma a demonstrar respeito pelo Islam, dado que foi nesta monarquia que aquela religião nasceu e é onde se encontram os dois dos lugares mais sagrados para os muçulmanos (Makkah e Madinah, o terceiro é o Masgid al-Aqsa em Jerusalém).
O ponto alto da missão de paz de Obama terá sido seu discurso de reconciliação dirigido aos muçulmanos, quinta-feira, no Egipto, segunda e última etapa da visita ao Médio Oriente. Não me debruçarei sobre o discurso de Cairo porque este artigo foi escrito no dia 03 de Junho, dado que por motivos profissionais, na altura em que o Presidente Obama estava a discursar na Universidade de Cairo, eu estava longe do Médio Oriente, mas depois de algum tempo, irei analisar a practicidade daquilo que o presidente norte-americano disser em Cairo. No fundo, o Presidente Obama pretende restaurar as relações degradadas devido à guerra do Iraque, ao escândalo da prisão de Abu Ghraib no Iraque, ao centro de detenção de Guantanamo e, em geral, às práticas defendidas pelo seu predecessor George W. Bush em nome da luta contra o terrorismo. A propósito das expectativas em relação ao seu discurso, Obama disse que “um único discurso não vai resolver todos os problemas” mas defende que a visita é “uma oportunidade para tentar fazer com que as duas partes se escutem um pouco mais e aprender alguma coisa”.

A escolha de Egipto para o aguardado discurso despertou alguns debates, mas se se olhar para o mundo muçulmano, nota-se que existiam poucas hipóteses que tivessem um simbolismo que o Presidente Obama pretendeu despertar com o seu discurso. Egipto está bem no meio do mundo muçulmano e estar aqui é ao mesmo tempo estar no mundo árabe e muçulmano, algo que não se consegueria na Turquia, Indonésia ou Malasia. Além disso, o governo egípcio está intimamente ligado à questão palestiniana e tem agido como intermediário entre Israel e o Hamas para resolver os conflitos na Faixa de Gaza e os reconciliar com a Fatah na Cisjordânia.

A viagem de Obama não inclui uma visita a Israel e este, para mim, é um claro sinal da firmeza de Presidente Obama em fazer com que partes voltem à mesa das negociações por forma a que se encontre uma solução que proteja o interesse de todos actores envolvidos e possa trazer a tão desejada paz no Médio Oriente. Mas, pouco antes de partir de Washington, na passada terça-feira, Presidente Obama se encontrou com o ministro da Defesa israelita, Ehud Barak. A reunião aconteceu a portas fechadas, mas informações dão conta de que o presidente americano reiterou o pedido para que Israel suspenda a construção de colonatos na Cisjordânia. Israel tem resistido a interromper as atividades de construção dos colonatos, que são considerados pelos líderes palestinianos e também pela administração americana como um dos maiores obstáculos à paz na região.
Todavia, como aliás a maior parte dos fazedores de opinião árabe-islâmico, acredito que as palavras do presidente norte-americano terão que necessariamente serem acompanhadas de acção e resultados tangíveis a, pelo menos, médio prazo. Se isto não se verificar, o mundo muçulmano poderá perder aquilo que se designa de confidence building measures (processos para construir confiança) que chegou ao “extremo” de o Irão aceitar o convite que a Federação Norte-Americana de Futebol lhe endereçara de a equipa nacional de futebol dos Estados Unidos jogar um jogo amigável contra o Irão ainda este ano no estádio Azadi em Teerão. É preciso não se perder esta oportunidade que o destino está a conceder tanto ao ocidente como ao mundo muçulmano para poderem se reconciliar. Neste particular, Presidente Obama deve continuar com mensagens positivas ao mundo islâmico no sentido de que o Ocidente está estender a mão ao Islam e dizer que podem se reconciliar em nome da paz e estabilidade no mundo. No fundo, uma melhor integração dos muçulmanos no Ocidente pode, acredito eu, decrescer os níveis de ódio e repulsa pelo Ocidente e pode ajudar a que a real imagem do Islam seja entendida pelos ocidentais.

Comments

  1. Olha Meu Caro e adorado Professor

    Em primeiro lugar deixa-me congratular-te por nao dormires na sombra do teu canudo como uns e outros e ao contrario fazeres jus ao teu pensamento academico. Tenho lido os teus textos no'Pais, procurei bastante o teu sitio e nao o encontrava. Bem, sobre o assunto em causa desconheco a sua analise completa pois li na diagonal mas senti que acreditas que Obama possa ter dado um passo importante rumo a uma aproximacao, desejada.

    Ora, queria lembrar que no mundo islamico, ha determinadas assumpcoes que sao bastantes caracteristicas e caracterizadores um pouco daquilo que constroem os elementos que posteriormente levam a criar a islamofobia como dizes, isto e, a negacao ou a duvida contra o Ocidente esta enraizada ao longo dos anos e exponencialmente personificada no antagonismo aos EUA quero com isto dizer que nao sera tarefa facil tanto para os americanos perderem o seu ego de GRANDEZA por causa da lideranca de Obama assim como para os Islamicos mundarem particularmente alguns pilares politicos enraizados na democracia religiosa que vao contra a democracia liberal. A tese que tento levantar parcialmente pode ser enqudrada em o Choque de Civilizacoes de Huntigton.

    " Que o misercordioso de Proteja"

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