A Crise dos Uighurs na China


A Organização da Conferência Islâmica condenou o “uso desproporcionado da força”, apelando a Pequim para “rapidamente julgar os responsáveis” e exorta a China a encontrar uma solução para a agitação, analisando, por isso, as causas da sua erupção.

Em Abril deste ano a cidade italiana de Alaquila viveu um fenómeno natural infeliz, um terramoto que semeou luto e desgraça em muitas famílias italianas. O ‘fogoso’ Primeiro Ministro italiano escolheu a cidade para hospedar a cimeira do G8 e Hu Jintao, o presidente chinês, deixou a Itália às pressas para regressar à China por forma a evitar um terramoto político causado pela crise que se verifica na cidade de Xinjiang, pois a situação nesta região da China mais próxima à Ásia Central se agrava. Oficialmente, morreram já mais de 150 pessoas nos choques entre chineses de etnia Han (majoritária no país) e os Uighurs (turcomenos). O artigo desta semana procura entender o que se passa com um grupo populacional que saltou para as primeiras páginas dos jornais quando um grupo de chineses muçulmanos da etnia Uighur (pronuncia-se WEE GUR)foi libertado do Guantánamo, por ordem do Presidente Obama, e foi viver para as Bermudas. Foi a partir daí que comecei a seguir, com algum interesse, a sua história e aproveito a crise que lhe está ligado para trazer um pouco da sua história.

Os Uighurs que são muçulmanos compõem 45% da população da província de Xinjiang (significa Nova Fronteira), noroeste do país, uma região da que é autónoma da China e procura a sua independência. Na verdade, os Uighurs vêem o termo “Xinjiang” como vergonhoso e preferem denominar a mesma como Uighuristão (em inglês, é Uighuristan que é o mesmo que dizer ‘nação dos Uighurs’, pois o termo TAN tem a ver com nação, território ou terra, ou seja, Afeganistão é a nação dos Afegãos o mesmo se aplica para Cazaquistão e outros estados do cáucaso, apenas Paquistão foge a esta regra, dado que o PAK do PAKISTAN significa, em urdhu, PURO, portanto se denomina ‘nação dos puros’). Contudo, desde o 11 de Setembro que Beijing teme pela estabilidade da região e reintroduziu a etiqueta ‘terrorista’ aos Uighurs, algo que é seguido pelos Estados Unidos da América que dá essa etiqueta ao principal grupo separatista que congrega os Uighurs, o Movimento Islâmico do Turquestão Oriental – ETIM, na sigla em inglês. Xinjiang faz fronteira com a Mongólia, Rússia, Cazaquistão, Quirguistão, Tajiquistão, Afeganistão, Paquistão e Índia – que inclui o naco do mundo onde a vertente do extremismo islâmico do Talibã e de Osama bin-Laden encontrou abrigo.

Ürümqi é a capital de Xinjiang, uma cidade que é grande parte industrializada onde vivem mais de 2,3 milhões de pessoas, aproximadamente 75% das quais são Han chineses, enquanto 12,8% são uighur, e 10% pertencem a outras etnias. As tensões étnicas entre Uyghurs Han e da população chinesa já existiam na região há várias décadas, e nos últimos anos, tem havido casos de violência e de confrontos étnicos em torno de Xinjiang. Exemplos de violência na área incluem os incidentes de Gulja (1997), o ataque à Kashgar (2008) e a bem como a agitação Uighur mais generalizada de 2008 no caminho para os Jogos Olímpicos de Pequim. Alguns Uighurs na área estão insatisfeitos com a discriminação que sofrem a favor dos Han. Animosidades Social, bem como dificuldades para um Uighur obter emprego, bem como um sentimento de discriminação também fomentam a tensão. Por outro lado, o governo central procura suprimir os anseios de cesseção e desejo de independência (os Uighurs chegaram a declarar dua vezes a sua independência em 1930 e 1940) através do incremento da imigração Han por forma diluir o elemento aglutinador, ou seja, a cultura que liga a civilização Uighur, bem como tornar o Islam como a religião das minorias. Em 1940, os Hans compunham 5% da população da província. Hoje já são 40%. A outra razão para o estímulo à migração é por se considerar que estabiliza as regiões do país com etnias muito distintas.

Por outro lado, Xinjiang é o canto mais rico em petróleo da China e a renda per capita na região também está entre as mais altas do país. Enquanto isso, o índice de desigualdade social é um dos piores. Chineses Han têm os melhores empregos, o Uighurs têm os piores. Alguns explicam que o problema é linguístico – num canto isolado do mundo, o grupo local não domina o mandarim, fala seu próprio dialeto de origem turcomena, uma língua parecida com o uzbeque que toma palavras emprestadas do persa. O problema é também educacional: os Han têm acesso a mais anos de escola.

Cenário propício para um conflito étnico? Sim, e por isso os motins de Ürümqi que fazem parte do nosso quotidiano desde o dia 5 de Julho de 2009 não podem constituir uma surpresa. Tudo começou com manifestações violentas e no primeiro dia envolveu entre 1000 a 3000 Uighurs. No fundo, a violência é parte de um conflito étnico em curso, mas especificamente estes motins foram suscitadas por insatisfação com o governo central chinês pela forma como reagiu à a mortes de dois trabalhadores Uighurs que se envolveram em uma rixa étnica na província de Guangdong dez dias antes. Contudo, a causa dos motins se tornou uma fonte de controvérsia. Pois. apesar dos protestos que precederam os motins terem sido uma resposta às mortes em Guangdong, após os motins terem eclodido, governo central chinês afirmou que os motins foram planejadas a partir do estrangeiro por Rebiya Kadeer, a exilada líder do Congresso Mundial Uighur, ou seja, o movimento que representa esta etnia na diáspora. Kadeer é também uma activista dos direitos humanos que já foi presa enquanto vivia na China e actualmente se encontra a viver em Washington. Esta é uma similaridade com a crise iraniana, pois se procuram bodes expiatórios fora do teatro da crise.

Em resposta à estes motins, o governo respondeu por fazer respeitar rigorosamente o recolher obrigatório na maioria das áreas urbanas, as comunicações foram afectadas, ou seja, o acesso à Internet e ao telefone celular foram cortados, em um modelo que também faz lembrar a recente crise pós-eleitoral no Irão, dado que a comunicação pode favorecer à reacções internacionais que deixariam a imagem da China um tanto quanto afectada, no que ao tratamento das minorias diz respeito. Por outro lado, a diáspora Uighur se sentiria mais identificada com a crise e manifestaria nas cidades onde as principais decisões mundiais são tomadas. Contudo, isto tudo está a acontecer e os chineses estão um pouco nervosos com toda esta situação, sinal disso, como disse na abertura deste artigo, foi a ‘gazeta’ do presidente chinês ao meeting do G8 a decorrer em Itália.

O jornalista americano Tom Doctoroff: i) os Uighurs sofrem mais repressão que os tibetanos, ii) a familiaridade do mundo exterior com a realidade dos Uighurs é reduzida e estes não têm um Dalai Lama que se movimenta pelo mundo inteiro defendendo a sua causa, iii) a questão da ‘guerra ao terrorismo’ dificultará que os Uighurs possam merecer uma grande simpatia por parte dos ocidentais, os que, para mim, ajudaríam e bastante para a solução do problema, essa falta de simpatia tem a ver, como atrás expresso, a etiqueta terrorista à resistência Uighur, e finalmente iv) os chineses têm mais medo dos Uighurs do que dos Tibetanos, dado que os primeiros são desconhecidos e o Tibete é um importante destino turístico, a religião é diferente, os Uighurs são muçulmanos e os Tibetanos são budistas, e há, ainda, diferenças culturais assinaláveis.

Então o que vai acontecer a seguir? Acredito que a rebelião será contida e os Uighurs continuarão a ser marginalizados e a fervilhar por tal situação. Doctorrof julga que “para evitar a adição de sentimentos adversos à todo este cenário, o governo vai evitar medidas extremamente duras, como por exemplo usar balas reais contra os manifestantes e vai manter a contagem de morte a um mínimo possível. Mas não se enganem. Qualquer medo de vexame internacional não vai diminuir a determinação do governo para abafar a dissidência. Sob o pretexto de salvaguardar a estabilidade, utilizará meios coercivos para estancar futuras revoltas - por exemplo, a tortura, agravamento contínuo da comunicação digital, que dura meses, proibições de viagens para Uighurs e jornalistas que se estendeu até 2011, continua demolição de bairros tradicionais e draconianas proibições à congregação comunitária e religiosa. O Partido Comunista ... irá recusar-se a "negociar" com os líderes Uighurs. Tensão com populações minoritárias aumentará...Quem me dera poder dizer que o Governo vai adoptar uma abordagem conciliatória e reconhecer a legitimidade de algumas queixas, mas o pavor de “parecer fraco”, agravado por um desinteresse do Ocidente, fará com que a tensão aumente e dure por muito tempo.”

Apesar de tudo isto, a vida vai continuar, vidas irão se perder, protestos internacionais irão se ouvir, mas a República Popular da China sobriviverá porque quem não tem um produto “made in China” que atire a primeira pedra!

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