Marwa el-Sherbini: Um Assassinato que Levou Angela Merkel a se Explicar à Hosni Mubarak!

“Parece que a sociedade alemã não entendeu a envergadura do atentado de Dresden. Falta reconhecer que o assassinato de Marwa El-Sherbini é evidentemente o resultado de uma propaganda praticamente desimpedida contra os muçulmanos, feita desde as margens extremistas da sociedade até seu centro”. Stephan Joachim Kramer, Secretário-Geral do Conselho Central dos Judeus na Alemanha
“O corpo de Marwa foi recebido no aeroporto do Cairo por uma multidão e sepultada na segunda-feira, 6 de julho, em Alexandria, no Egito. Ela já é vista por conterrâneos e por outros muçulmanos residentes na Europa como mártir”. Reportagem da Euronews no dia 06 Julho.
Por alturas do natal de 2007, dois jovens atacaram um senhor de idade em uma estação de metro em Munique, batendo de tal jeito que o homem foi levado para o hospital em um estado crítico. No dia 01 de Julho passado, uma senhora de 32 anos, grávida de 3 meses, foi assassinada durante um processo contra um agressor racista, no Tribunal Estadual de Dresden (capital do estado da Saxónia, na Alemanha). Ela foi assassinada pelo agressor enquanto o seu filho, de três anos de idade, era obrigado a presenciar o ocorrido no tribunal. Seu marido, que tentou ajudá-la, foi ferido gravemente pelo agressor e pela polícia alemã que o confudiu com o agressor, correndo risco de vida.
Nos dias seguintes dos dois incidentes acima descritos, se notam diferenças abismais no tratamento que a imprensa alemã concedeu aos mesmos. O primeiro incidente transformou-se em um escândalo de proporções gigantescas, com a imprensa a dedicar grandes espaços de debate e análise aos porquês do mesmo ter acontencido, levando, até, ao surgimento de uma crise política que se arrastou durante vários meses. No segundo incidente, pouco lia-se, via-se ou ouvia-se na imprensa alemã, aliás a primeira agência noticiosa que relatou o sucedido apenas trechos muito generalistas, sem nomes dos intervenientes e sem a real discrição do que se tinha passado, o que levou a que o mesmo fosse quase abafado até à segunda semana do corrente mês.
A diferença no tratamento entre os dois incidentes ilustra dois-pesos-e-duas-medidas que a maioria da imprensa alemã e ocidental (aliás em Moçambique também) trata de assuntos relacionados com muçulmanos. No incidente do metro de Munique os agressores eram jovens muçulmanos turcos e no de Tribunal de Dresden a agredida foi uma muçulmana, a farmacêutica egípcia Marwa el-Sherbini. No fundo, para a primeira situação, a mencionada imprensa já tem o descurso preparado na ponta dos dedos, língua ou caneta, algo que já não acontece incidentes similares ao do segundo caso. Este artigo procura fazer uma singela homenagem à todos que se sintam injustiçados pela mídia por serem minorias nos lugares onde habitem e também pela descriminação que estas mesmas minorias sofrem por causa da crescente onda de xenofobia e racismo.
Mas porque é que Marwa el-Sherbini morreu? Marwa foi ao tribunal testemunhar contra Alexander W., um alemão de 28 anos, de ascendência russa e que é um fanático neo-nazi que odeia muçulmanos. Em agosto do ano passado, ela delicadamente pediu ao alemão que cedesse um lugar em um baloiço de jardim para o seu filho, Mustafá, de 3 anos, e recebeu como resposta graves ofensas: "pu** islâmica e terrorista", o agressor ainda tentou remover o véu que ela vestia. Ela denunciou estes fatos e 3 meses mais tarde o racista foi condenado a uma multa de 780 Euros. O promotor do ministério público recorreu desta sentença argumentando que ela era demasiada leve e um novo julgamento foi marcado para o 1 de julho passado. Ali, além do réu, estavam presentes seu advogado, o juiz e o promotor do ministério público, Marwa estava acompanhada de seu filho e de seu marido, Elwi Ali Okaz, um imigrante do Egito, que vive há 4 anos em Dresden, e trabalha como professor no instituto "Max Planck".
“O corpo de Marwa foi recebido no aeroporto do Cairo por uma multidão e sepultada na segunda-feira, 6 de julho, em Alexandria, no Egito. Ela já é vista por conterrâneos e por outros muçulmanos residentes na Europa como mártir”. Reportagem da Euronews no dia 06 Julho.
Por alturas do natal de 2007, dois jovens atacaram um senhor de idade em uma estação de metro em Munique, batendo de tal jeito que o homem foi levado para o hospital em um estado crítico. No dia 01 de Julho passado, uma senhora de 32 anos, grávida de 3 meses, foi assassinada durante um processo contra um agressor racista, no Tribunal Estadual de Dresden (capital do estado da Saxónia, na Alemanha). Ela foi assassinada pelo agressor enquanto o seu filho, de três anos de idade, era obrigado a presenciar o ocorrido no tribunal. Seu marido, que tentou ajudá-la, foi ferido gravemente pelo agressor e pela polícia alemã que o confudiu com o agressor, correndo risco de vida.
Nos dias seguintes dos dois incidentes acima descritos, se notam diferenças abismais no tratamento que a imprensa alemã concedeu aos mesmos. O primeiro incidente transformou-se em um escândalo de proporções gigantescas, com a imprensa a dedicar grandes espaços de debate e análise aos porquês do mesmo ter acontencido, levando, até, ao surgimento de uma crise política que se arrastou durante vários meses. No segundo incidente, pouco lia-se, via-se ou ouvia-se na imprensa alemã, aliás a primeira agência noticiosa que relatou o sucedido apenas trechos muito generalistas, sem nomes dos intervenientes e sem a real discrição do que se tinha passado, o que levou a que o mesmo fosse quase abafado até à segunda semana do corrente mês.
A diferença no tratamento entre os dois incidentes ilustra dois-pesos-e-duas-medidas que a maioria da imprensa alemã e ocidental (aliás em Moçambique também) trata de assuntos relacionados com muçulmanos. No incidente do metro de Munique os agressores eram jovens muçulmanos turcos e no de Tribunal de Dresden a agredida foi uma muçulmana, a farmacêutica egípcia Marwa el-Sherbini. No fundo, para a primeira situação, a mencionada imprensa já tem o descurso preparado na ponta dos dedos, língua ou caneta, algo que já não acontece incidentes similares ao do segundo caso. Este artigo procura fazer uma singela homenagem à todos que se sintam injustiçados pela mídia por serem minorias nos lugares onde habitem e também pela descriminação que estas mesmas minorias sofrem por causa da crescente onda de xenofobia e racismo.
Mas porque é que Marwa el-Sherbini morreu? Marwa foi ao tribunal testemunhar contra Alexander W., um alemão de 28 anos, de ascendência russa e que é um fanático neo-nazi que odeia muçulmanos. Em agosto do ano passado, ela delicadamente pediu ao alemão que cedesse um lugar em um baloiço de jardim para o seu filho, Mustafá, de 3 anos, e recebeu como resposta graves ofensas: "pu** islâmica e terrorista", o agressor ainda tentou remover o véu que ela vestia. Ela denunciou estes fatos e 3 meses mais tarde o racista foi condenado a uma multa de 780 Euros. O promotor do ministério público recorreu desta sentença argumentando que ela era demasiada leve e um novo julgamento foi marcado para o 1 de julho passado. Ali, além do réu, estavam presentes seu advogado, o juiz e o promotor do ministério público, Marwa estava acompanhada de seu filho e de seu marido, Elwi Ali Okaz, um imigrante do Egito, que vive há 4 anos em Dresden, e trabalha como professor no instituto "Max Planck".
A princípio a sessão estava se desenvolvendo sem problemas, mas, de repente, quando Marwa acabava de fazer sua declaração, Alexander sacou uma faca e atacou a mulher que usava véu muçulmano, e, em poucos minutos, matou-a com dezoito facadas. Seu marido e o advogado do acusado tentaram parar o agressor sem sucesso, acabando seu esposo saindo também gravemente ferido. Dois policiais que entraram na sala em vez de ajudarem a vítima atiraram na perna do seu marido que correra em socorro da esposa, "suspeitando" que ele fosse o agressor. Marwa morreu imediatamente dentro da sala do Tribunal por causa de seus múltiplos ferimentos. Seu marido foi transferido para o hospital em estado de coma. Seu filho também saiu ferido, e está sob cuidado de amigos da família. Um dia depois do assassinato o porta-voz da promotoria pública, Christian Avenarius, descreveu Alexander como um "carrasco, fanático, extremamente racista...".
A situação no estado da Saxônia, cuja capital é Dresden, é muito preocupante, devido à força que o movimento neonazista tem na região, e que se desenvolve sob a custódia do Estado alemão. Todos os anos, em fevereiro, há uma tradicional manifestação neonazista na cidade chamada "marcha fúnebre", em "homenagem" às vitimas dos bombardeamentos dos aliados ocorridos em 1945 durante a Segunda Guerra Mundial, com uma participação de aproximadamente 6.000 neonazistas.
Dresden é um dos grandes redutos do partido neonazista NPD, que conta com uma grande participação no parlamento regional, com oito parlamentares neonazistas que, entre outras políticas, defendem a proibição de construção de mesquitas, promovem a expulsão de muçulmanos na Alemanha e são contra a adesão da Turquia à União Europeia. E a política conservadora e racista do governo da Saxônia há muitos anos permite o avanço dos ataques fascistas e racistas, com um alto grau de organização de grupos da extrema direita. Por isto, o assassinato de Marwa é uma das consequências lógicas desta política racista e xenófoba. Como se pode depreender, este incidente suscitou sentimentos de revolta e protestos por parte de países de maioria muçulmana, como por exemplo o Irão, onde o seu presidente perguntou ao ocidente porque se mantinha calado perante tal crime e tinha muito a dizer em relação à recente onda de contestação pós-eleitoral no seu país. A reacção oficial da Chanceler alemã, Agelela Markel, foi considerada tardia e só aconteceu na passada sexta-feira no final da cimeira do G8 quando ela expressou seu pesar e condolências ao Presidente Egípcio, Hosni Mubarak. Contudo, alguns analistas olham para esta reacção tardia na esteira da visão da Chanceler concernente à presença de muçulmanos no seu país que, embora ela procure desenvolver políticas de integração, são vistos como desnecessários, pois muitos imigraram para este país no contexto de provisão de escassa mão-de-obra local, o seu governo ainda não permite que descendentes de segunda e terceira gerações possam ter o direito de cidadania alemã e o direito de poderem ter o passaporte alemão, além disso, são conhecidas as suas posições no que à adesão da Turquia à União Europeia diz respeito.
Comentando este incidente, no dia 13 de Julho a jornalista alemã, Anja Seeliger, publicou um artigo no jornal inglês The Guardian, onde ela faz um conjunto de questões de que a imprensa alemã devia ter tratado e se furtou a fazê-lo. Por exemplo, i) a crescente xenofobia e neo-nazismo na Saxonia, ii) o facto de alguns alemãs apoiarem as políticas do NPD que, lembre-se, elegeu alguns deputados no parlamento regional, iii) a pobre integração dos alemãs de origem russa e seu racismo, iv) se Marwa teria sido morta se não fosse fiel à sua religião que o mostrava pela recusa de remover o véu e o que esta vestimenta significa para a sociedade germânica no geral, v) o facto do marido da Marwa ter sido atingido pela polícia não o agressor, talvez por não ser loiro e vi) o porquê da porta-voz do Tribunal de Dresden no seu primeiro comunicado de imprensa não mencionou a nacionalidade e a religião da vítima, que neste caso jogou um papel vital como móbil do crime. Anja termina seu artigo por dizer que "Mas nenhuma dessas questões foram colocadas. A imprensa tratou o caso como se fosse algo banal e não como um trágico incidente, algo que não se pode realmente entender. Não foi até as manifestações no Cairo que os detalhes foram publicados. E então, a imprensa alemã muito rapidamente tinha outras preocupações. Um dia após as manifestações, de lucutor de uma rádio [alemã] telefonou para Karim al-Gawhary, correspondente de um jornal alemão em Cairo, e lhe perguntou: 'Quão perigoso é agora para turistas alemães no Egito?'."
Comentando este incidente, no dia 13 de Julho a jornalista alemã, Anja Seeliger, publicou um artigo no jornal inglês The Guardian, onde ela faz um conjunto de questões de que a imprensa alemã devia ter tratado e se furtou a fazê-lo. Por exemplo, i) a crescente xenofobia e neo-nazismo na Saxonia, ii) o facto de alguns alemãs apoiarem as políticas do NPD que, lembre-se, elegeu alguns deputados no parlamento regional, iii) a pobre integração dos alemãs de origem russa e seu racismo, iv) se Marwa teria sido morta se não fosse fiel à sua religião que o mostrava pela recusa de remover o véu e o que esta vestimenta significa para a sociedade germânica no geral, v) o facto do marido da Marwa ter sido atingido pela polícia não o agressor, talvez por não ser loiro e vi) o porquê da porta-voz do Tribunal de Dresden no seu primeiro comunicado de imprensa não mencionou a nacionalidade e a religião da vítima, que neste caso jogou um papel vital como móbil do crime. Anja termina seu artigo por dizer que "Mas nenhuma dessas questões foram colocadas. A imprensa tratou o caso como se fosse algo banal e não como um trágico incidente, algo que não se pode realmente entender. Não foi até as manifestações no Cairo que os detalhes foram publicados. E então, a imprensa alemã muito rapidamente tinha outras preocupações. Um dia após as manifestações, de lucutor de uma rádio [alemã] telefonou para Karim al-Gawhary, correspondente de um jornal alemão em Cairo, e lhe perguntou: 'Quão perigoso é agora para turistas alemães no Egito?'."
Termino com a conclusão de Kramer: "Sei que a indignação e a insegurança entre os muçulmanos são grandes no momento, o que é compreensível. Mesmo assim, eles não deveriam esmorecer em seus esforços pelo lugar legítimo que lhes cabe na sociedade alemã. Para muitos – e isto ensina a experiência de outras minorias, inclusive dos judeus – tal significa um exercício de equilíbrio entre manter a própria identidade e se abrir para o ambiente social. Para solucionar esse dilema, é também imprescindível um diálogo aberto entre a minoria e a maioria. Integração não significa assimilação. Em caso de respeito mútuo, a diferença não é uma pedra no sapato da convivência."
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