Fatah: O Congresso de Rejuvenescimento

“Apesar de estarmos empenhados em conseguir uma paz justa e de continuarmos a procurá-la, não renunciamos a nenhuma outra forma de a alcançar. Acreditamos na resistência, por todos os meios possíveis; é um direito legal das nações ocupadas para enfrentar os seus ocupantes.” Uma das cláusulas do programa político da Fatah votado no congresso desta semana

Uma das coisas que custa é rejuvenescer algo que tem perdido a cara a custa de lutas internas, não consegue se reconciliar com o todo que forma o corpo e tem dificuldades em fazer paz com os corpos à volta. A Fatah é esse algo que tem estado em envolto em lutas de poder internamente, se degladia pela legitimidade palestiniana com o Hamas desde 2006 e, por via disso, não consegue restabelecer as negociações com o Estado de Israel para a criação do tão necessário e adiado Estado da Palestina. Contudo, o sexto congresso do Fatah, iniciado no passado 4, no qual participaram cerca de 2.350 delegados, o primeiro em 20 anos e também o primeiro a ser realizado em território palestino, procurou abordar estas nuances e perspectivar um melhor futuro para as aspirações de um povo que há mais de 60 anos espera pela sua vez para celebrar a tão ansiada independência.

Antes de falar do congresso em si, é importante lembrar que a Fatah ou Al-Fatah é um acrónimo reverso do nome árabe Harakat al-Tahrir al-Watani al-Filastini literalmente: "Movimento de Libertação Nacional da Palestina", é uma organização política e militar, fundada em 1964 pelo engenheiro Yasser Arafat e Khalil al-Wazir (Abu Jihad), juntamente com a criação da Organização para a Libertação da Palestina (OLP). Os membros desse grupo defendiam a luta armada para expulsar Israel dos territórios ocupados. O Fatah ocupou o Conselho Revolucionário da OLP, atuando como seu braço armado. Atualmente possui o presidente da Palestina, Mahmoud Abbas. O Fatah é um movimento secular e nacionalista, que reconheceu o direito de existência do Estado de Israel. Esta é uma das principais razões de sua aceitação internacional. O Fatah é ligado ao grupo Brigada dos Mártires de al-Aqsa, compostas por grupos autônomos disseminados pelos territórios palestinos. Uma das causas que fez com que a Fatah se tornasse o núcleo da OLP tem a ver com o facto de o movimento ter sido criado dentro da Palestina o que fazia com o povo melhor se identificasse com o mesmo do que com os outros movimentos que fazem parte da OLP e que foram formados na diáspora.

A Fatah tinha o monopólio na Autoridade Nacional Palestiniana (criada pelos acordos de paz de Oslo de 1991 entre Israle e OLP) antes de ser derrotado nas legislativas de 2006 pelo movimento islamita Hamas que o expulsou pela força da Faixa de Gaza, em 2007. Actualmente, o poder do Fatah está limitado à Cisjordânia. O declínio da Fatah acelerou-se a partir da morte (em 2004) do fundador e chefe histórico Yasser Arafat, ao qual Mahmud Abbas sucedeu na chefia do partido e da Autoridade Palestiniana.

Indo ao congresso e os seus resultados, o Fatah conta desde esta terça-feira com uma direcção cheia de sangue novo eleitos nesse momento histórico deste partido palestiniano. Os resultados oficiais das eleições internas foram divulgados na manhã da citada terça-feira. Para além do símbolo da resistência palestiniana, Marwan Barghuthi, entraram no Comité Central do principal partido laico palestiniano 13 novos membros, num total de 18. Detido em 2002, pelas forças israelitas, Barghuthi foi condenado, dois anos depois, a prisão perpétua por um tribunal civil israelita. Apesar da sua detenção em Israel continua a ser um dos líderes políticos palestinianos mais populares. Saeb Erekat, um dos principais negociadores palestinianos faz parte desta nova direcção. Duas figuras de destaque foram eleitas para o Comité Central. São elas Mohammad Dahlane, de 48 anos, e Jibril Rajub, de 56. Dahlane era o homem forte do Fatah em Gaza, antes do partido ter sido derrotado pelo Hamas, que assumiu o controlo da faixa em Junho de 2007. Rajub é um antigo chefe da segurança preventiva na Cisjordânia e preside actualmente à Federação de Futebol e ao Comité Olímpico palestinianos.

Na votação de domingo e segunda-feira, os delegados elegeram também 80 membros do Conselho Revolucionário (as vezes faz de parlamento do próprio partido), que conta com um total de 120. O Comité Central inclui 23 membros. 18 foram eleitos, os restantes serão designados pela direcção do partido. No sábado, o presidente da Autoridade Palestiniana, Mahmud Abbas, foi reeleito por unanimidade para a chefia do partido que dirige desde a morte de Yasser Arafat em 2004.

Mas a Fatah, que ainda se define como movimento de libertação nacional, reluta em abandonar plenamente as armas. Em declaração na qual delineia os princípios de sua nova carta política, o partido reafirmou seu compromisso para com uma paz justa, mas declara acreditar que os palestinianos, como povo sob ocupação, retêm o direito legítimo a resistir "de todas as formas". O Congresso do Fatah, portanto no seu novo programa político, reitera "o direito do povo palestiniano a resistir à ocupação israelita por todos os meios possíveis".

Os delegados ao Congresso votaram por esmagadora maioria a cláusula onde se afirma: "Apesar de estarmos empenhados em conseguir uma paz justa e de continuarmos a procurá-la, não renunciamos a nenhuma outra forma de a alcançar. Acreditamos na resistência, por todos os meios possíveis; é um direito legal das nações ocupadas para enfrentar os seus ocupantes". O documento sublinha igualmente que os palestinianos não se recusam a "reconhecer Israel como Estado judeu a fim de proteger os direitos dos refugiados e dos palestinianos do outro lado da linha verde, entre Israel e a Cisjordânia», numa referência aos cerca de 1,3 milhões de árabes que vivem em Israel. As autoridades israelitas reagiram de imediato. O ministro da Defesa, Ehud Barak, considerou o Congresso "decepcionante e nada prometedor", enquanto o chefe da diplomacia, Avigdor Lieberman, afirmou que a plataforma política aprovada tinha "enterrado qualquer possibilidade de chegar a uma paz com os palestinianos nos anos mais próximos".

As "constantes" da Fatah, afirma a declaração, são a libertação da terra palestina e de Jerusalém, a remoção dos assentamentos israelenses e a exigência de que os exilados palestinos de 1948 e seus descendentes tenham o direito de retornar. A declaração não especifica que terras e que porções de Jerusalém devem ser libertadas, mas os delegados afirmam que fica claro que a declaração se refere às áreas conquistadas por Israel na guerra de 1967. Diversos deles afirmaram que o programa não apresenta nada de realmente novo. Além da irritação que a referência a "resistência" lhes causa, os israelitas também estão zangados com uma resolução da conferência que responsabiliza Israel pela morte de Yasser Arafat, o fundador da Fatah, em 2004. Nasser al-Kidwa, um dos líderes da Fatah e sobrinho de Arafat, comandou uma investigação palestiniana sobre a morte de Arafat e declarou em entrevista aqui que "existe forte possibilidade de envenenamento", ainda que não tenham sido identificadas provas definitivas.

As decisões deste histórico perderão o momentum se o diálogo para a unificação política palestiniana continuar a ser adiada. O Hamas, que controla a Faixa de Gaza, o que por consequência dificulta o reinício das negociações com Israel, esteve a acompanhar o congresso e espera, segundo um dos seus líderes, Mahmoud Zahar, que estas eleições possam abrir a porta para o retomar do diálogo rumo ao governo de unidade que têm estado interropindo há já algum tempo e que costumam ter lugar em Cairo.
Contudo, esta cogresso foi importante por ter acontecido numa altura em que, segundo o jornal saudita Saudi Gazette, o Presidente Obama se prepara para anunciar um plano compreensivo para que se consiga a paz entre os israelitas e palestinianos. Ou seja, o ano de 2009 pode ser o ano de Obama, já que depois de Praga (luta contra proliferação nuclear), Cairo (um novo começo com o mundo muçulmano), Acra (relação de cooperação com África), agora chega a vez do conflito que se resolvido pode lhe dar o nobel da paz. Torço que ele consiga e quando tiver mais detalhes do citado plano, terei um enorme prazer de o partilhar aqui nestas linhas do oriente.

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