O Significado da Peregrinação à Mecca

“E quando indicamos a Abraão o lugar da Casa, dizendo ‘Nada associes a Mim, e purifica Minha Casa para os que a circundam e para os que nela se põem de pé, curvam e se prostram em adoração. E proclama a Peregrinação entre a humanidade: Eles virão a pé ou montados em camelo emagrecido pela longa viagem, vindos de desfiladeiros distantes.’” (Alcuran 22:26-27)

Quando o estimado leitor estiver nas linhas do oriente, o autor das mesmas estará a cumprir uma obrigação que todos os muçulmanos devem se submeter pelo menos uma vez na vida. Refiro-me do quinto mandamento da religião islâmica: O hajj, ou peregrinação à Mecca, que é um dever central do Islam e cujas origens remontam ao Profeta Abraão, reúne os muçulmanos de todas as raças e línguas para uma das experiências espirituais mais comoventes da vida. O hajj à Mecca é uma obrigação uma vez na vida para cada homem e mulher adultos cuja saúde e meios financeiros o permitam, ou, nas palavras do Alcuran, para “aqueles que possam chegar até lá.” Não é uma obrigação para crianças, embora algumas crianças acompanhem seus pais nessa jornada. É importante que toque neste assunto considerando que o Médio Oriente tem como um dos traços mais marcantes o facto de ser o berço das três religiões monoteístas existentes: o Judaísmo, o Cristianismo e o Islam, aliado ao facto de eu viver no país onde estão localizados os dois dos três lugares mais santos para os muçulmanos, aliás estes dias nota-se um ambiente e clima diferentes e as televisões e jornais têm espaços diários a falar sobre o mesmo assunto.

Antes que fale do hajj propriamente dito, permitam-me que partilhe a história de Mecca. Makkah ou Mecca, em árabe Makka (Makka al-Mukkarama), que no passado já foi chamada de Makoraba, é uma cidade situada a oeste da Península Arábica, é a capital do Hejaz. Tem cerca de 1.618 mil habitantes. Nela nasceu Muhammad em 570. É a mais importante de todas as cidades santas do Islam, visitada todo o ano por numerosos peregrinos. Antes que Muhammad viesse a pregar o Islam, já era uma cidade santa, com vários lugares de importância religiosa. Dentre eles o mais importante é a Kaaba (também conhecido como Ka'bah, Kabah ou Caaba), que é uma construção que está localizada nas coordenadas 21°25'24"N e 39°49'24"E. A Kaaba é uma construção cúbica de 15,24 metros de altura e é cercada por muros de 10,67 m e 12,19 m de altura. Ela está permanentemente coberta por uma manta escura com bordados dourados que é regularmente substituída. No seu interior encontra-se a Hajar el Aswad (também chamada de "Pedra Negra"), uma pedra escura de cerca de 50 cm de diâmetro que é uma das relíquias mais sagradas do Islam. Ela é provavelmente o resto de um meteorito. A Kaaba é o centro das peregrinações (hajj), e é para onde o devoto muçulmano se volta para as suas preces diárias (salat). O primeiro registro histórico à cidade vem de Ptolomeu, geógrafo egípcio, no século II, que a chamava de Makoraba. Em 1517 a cidade foi tomada pelos turcos, que a deixaram sob o domínio dos descendentes de Muhammad e de seu genro Alí-ibn-Abi-Talib, até que no ano 1916 foram expulsos por Husayn ibn Alí, que mais tarde viria a ser o primeiro rei de al-Hijaz.

Por 14 séculos, incontáveis milhões de muçulmanos, homens e mulheres dos quatro cantos da terra, têm feito a peregrinação à Mecca, seguindo as origens registradas da peregrinação divinamente prescrita ao Profeta Abraão. De acordo com o Alcuran, foi Abraão quem, junto com Ismael, construiu a Kaaba, “a Casa de Deus”. Foi Abraão também quem estabeleceu os rituais do hajj, que relembram eventos ou práticas em sua vida e na de Hagar e seu filho Ismael.
Na época que o Profeta Muhammad recebeu o chamado divino, entretanto, práticas pagãs tinham contaminado algumas das observâncias originais do hajj. O Profeta, como ordenado por Deus, continuou o hajj abrâmico após restaurar seus rituais à pureza original. Além disso, o próprio Muhammad instruiu os crentes nos rituais do hajj. Ele fez isso de duas formas: através de sua própria prática, ou através da aprovação de práticas de seus Companheiros. Isso acrescentou alguma complexidade aos rituais, mas também forneceu uma flexibilidade maior na sua execução, em benefício dos peregrinos desde então. É lícito, por exemplo, haver alguma variação na ordem na qual vários rituais são realizados, porque está registrado que o próprio Profeta aprovou essas acções. Assim, os rituais do hajj são elaborados, numerosos e variados; os aspectos de alguns deles são destacados abaixo.

Antes de partir, um peregrino deve repensar todos os seus erros, pagar todas as dívidas, planejar ter fundos suficientes para sua própria jornada e para a manutenção de sua família enquanto ele estiver longe, e se preparar para uma boa conduta durante o hajj. Quando os peregrinos empreendem a jornada do hajj, eles seguem os passos de milhões antes deles. Hoje em dia centenas de milhares de crentes de mais de 70 nações chegam a Mecca por terra, mar e ar todo ano, completando uma jornada que agora é muito mais curta e em alguns casos menos árdua do que costumava ser no passado. Até o século 19, viajar a longa distância até Mecca geralmente significava ser parte de uma caravana. Existiam três caravanas principais: a egípcia, formada no Cairo; a iraquiana, formada em Bagdad; e a síria, que, após 1453, começava em Istambul, reunia peregrinos ao longo do caminho e procedia para Mecca de Damasco. Como a jornada do hajj levava meses se tudo corresse bem, os peregrinos carregavam com eles provisões para sustentá-los na viagem. As caravanas eram elaboradamente supridas com amenidades e segurança se as pessoas que viajavam eram ricas, mas os pobres geralmente ficavam sem provisões e tinham que interromper sua jornada para trabalhar, poupar o que tinham ganho, e então seguir caminho. Isso resultava em longas jornadas que, em alguns casos, duravam dez anos ou mais. Viajar naqueles tempos estava repleto de aventura. As estradas eram inseguras devido a ataques de bandidos. O terreno no qual os peregrinos passavam também era perigoso, e perigos naturais e doenças frequentemente clamavam muitas vidas ao longo do caminho. Portanto, o retorno bem-sucedido dos peregrinos para suas famílias era ocasião de celebração festiva e gratidão por sua chegada a salvo.

A peregrinação acontece a cada ano entre o oitavo e o décimo-terceiro dia de Dhul-Hijjah, o décimo-segundo mês do calendário islâmico lunar. O seu primeiro ritual é adoptar a vestimenta de ihram, que é usado por homens, é uma vestimenta branca sem costura feita de duas peças de tecido; uma cobre o corpo da cintura até abaixo dos joelhos, e a outra é jogada sobre o ombro. Essa vestimenta foi usada por Abraão e Muhammad. As mulheres se vestem como elas usualmente fazem. As cabeças dos homens devem estar descobertas; tanto homens quanto mulheres podem usar uma sombrinha. O ihram é um símbolo de pureza e de renúncia do mal e de assuntos mundanos. Também indica a igualdade de todas as pessoas aos olhos de Deus. Quando o peregrino usa sua vestimenta branca, ele ou ela entra em um estado de pureza que proíbe discussão, cometer violência contra um homem ou animal e ter relações conjugais. Uma vez que ele ponha suas roupas de hajj o peregrino não pode se barbear, cortar suas unhas ou usar qualquer jóia, e ele usará a sua vestimenta sem costura até completar a peregrinação.
Um peregrino que já está em Mecca começa seu hajj do momento em que ele coloca o ihram. Alguns peregrinos vindos de lugares distantes podem ter entrado em Mecca mais cedo com seu ihram e podem continuar a usá-lo. O vestir o ihram é acompanhado pela invocação básica do hajj, a talbiyah: “Aqui estou, Ó Deus, a Teu Serviço! Aqui estou a Teu Serviço! Tu não tens parceiros; Aqui estou a Teu Serviço! Teu é o louvor, a graça e o domínio! Tu não tens parceiros.”

No primeiro dia do hajj, os peregrinos saem de Mecca na direção de Mina, uma pequena aldeia desabitada a oeste da cidade. Enquanto as multidões se espalham em Mina, os peregrinos geralmente passam seu tempo meditando e orando, como o Profeta fez em sua peregrinação. Durante o segundo dia, o nono dia de Dhul-Hijjah, os peregrinos deixam Mina para a planície de Arafat, onde eles descansam. Esse é o ritual central do hajj. Enquanto eles congregam lá, a postura e a reunião dos peregrinos os relembra do Dia do Juízo. Alguns deles se reúnem no Monte da Misericórdia, onde o Profeta fez seu inesquecível Sermão da Despedida, enunciando reformas religiosas, econômicas, sociais e políticas abrangentes. Essas são horas carregadas de emoção, que os peregrinos passam em adoração e súplicas. Muitos choram enquanto pedem a Deus que os perdoe. Portanto, os peregrinos esperançosos se preparam para deixar a planície com alegria, se sentindo renascidos sem pecados e pretendendo abrir uma nova página.

Todo o homem ou mulher que efetuou o Hajj é chamado de hajji ou hajja, respectivamente, alcançado um estatuto de respeito na comunidade e na família.Alguns peregrinos aproveitam a ocasião para se deslocarem à cidade de Medina, onde se encontra o túmulo do profeta Muhammad. Portanto, depois desta importante viagem poderei também passar a ser chamado Hajji Abdula Manafi Mutualo.

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